Opacidade Informacional e o Problema do Iceberg Digital nas Unidades de Informação

Opacidade Informacional e o Problema do Iceberg Digital nas Unidades de Informação

Por Daniel Flores – PPGCI/UFAL & Grupo de Pesquisa CNPq UFAL PDS & Ged/A
Blog Documentos Arquivísticos Digitais
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A consolidação da transparência ativa no Brasil, especialmente após a promulgação da Lei nº 12.527/2011, não eliminou um problema estrutural nas Unidades de Informação: a persistência de uma ampla opacidade informacional. Embora a publicidade formal esteja juridicamente assegurada, grande parte do patrimônio documental permanece fora do alcance efetivo dos ecossistemas digitais contemporâneos.

Essa condição pode ser compreendida por meio da metáfora do iceberg digital. A parcela visível corresponde aos conteúdos digitalizados, descritos segundo padrões normalizados e disponibilizados em formatos interoperáveis. A porção submersa — significativamente maior — é composta por documentos ainda não digitalizados, não descritos conforme normas arquivísticas reconhecidas ou disponibilizados exclusivamente em formatos fechados, como arquivos PDF sem metadados estruturados.

O problema não é apenas tecnológico, mas conceitual. O Modelo OAIS, formalizado como norma ISO 14721 (ISO, 2012), reconhece a entidade Consumer como responsável pela entrega de informação à comunidade designada. Contudo, não especifica requisitos arquivísticos detalhados para garantir que o acesso preserve autenticidade, contexto e interoperabilidade. A ausência dessa modelagem explícita contribui para que a difusão permaneça frequentemente restrita à visualização humana, sem integração sistêmica.

Do ponto de vista arquivístico, a autenticidade não é atributo abstrato, mas resultado da preservação de identidade e integridade ao longo do tempo (DURANTI, 1995). Para que um documento digital seja considerado autêntico, sua forma, conteúdo e contexto devem permanecer controlados por meio de cadeia de custódia confiável e mecanismos de preservação adequados. Em ambientes digitais dinâmicos, essa exigência torna-se ainda mais complexa, exigindo critérios explícitos para manutenção da confiabilidade documental (DURANTI, 2013).

Quando informações públicas não são estruturadas para reuso, sua inserção em ecossistemas digitais contemporâneos torna-se limitada. Os Princípios FAIR estabelecem que dados devem ser localizáveis, acessíveis, interoperáveis e reutilizáveis (WILKINSON et al., 2016). A ausência de exportação em formatos como XML, CSV ou JSON impede que instrumentos de gestão arquivística, planos de classificação ou catálogos sejam integrados a ambientes de busca federada ou sistemas automatizados de recuperação.

A opacidade informacional manifesta-se em três dimensões complementares. A primeira é a opacidade material, referente a documentos ainda restritos ao suporte físico. A segunda é a opacidade representacional, decorrente da ausência de descrição normalizada e contextualização arquivística adequada. A terceira é a opacidade interoperacional, resultante da inexistência de padrões de exportação estruturada e protocolos de colheita automatizada.

As consequências são significativas. Sistemas de busca e arquiteturas contemporâneas de inteligência artificial operam predominantemente sobre conteúdos estruturados e indexáveis. Quando acervos arquivísticos e bibliográficos não são disponibilizados em padrões interoperáveis, permanecem fora do alcance desses mecanismos. O resultado é que respostas automatizadas sobre temas históricos, administrativos ou culturais tendem a apoiar-se em fontes secundárias disponíveis na web, excluindo documentos primários preservados em instituições públicas.

Historicamente, a verificação documental ocorria em espaços institucionais reconhecidos — arquivos, bibliotecas, hemerotecas. A imagem do pesquisador consultando microfilmes simbolizava acesso mediado por garantia institucional. No ambiente digital contemporâneo, essa mediação desloca-se para plataformas online. Se tais plataformas não asseguram autenticidade, interoperabilidade e transparência estruturada, a mediação passa a ocorrer em ambientes informais, nos quais a verificação documental é precária.

Superar o iceberg digital exige integração entre digitalização qualificada, descrição segundo padrões internacionais, interoperabilidade técnica e modelagem explícita da entidade Consumer do Modelo OAIS. Sem essa articulação, a preservação institucional não se converte plenamente em visibilidade digital e reuso qualificado.


Resumo

O texto analisa a opacidade informacional nas Unidades de Informação a partir da metáfora do iceberg digital. Argumenta-se que grande parte do patrimônio documental permanece invisível aos ecossistemas digitais devido à ausência de digitalização qualificada, descrição normalizada e interoperabilidade. Com base nos fundamentos da autenticidade arquivística e nos princípios FAIR, defende-se que a superação dessa opacidade exige integração entre preservação, modelagem da entidade Consumer do Modelo OAIS e adoção de padrões estruturados de reuso informacional.

Palavras-chave: Opacidade Informacional, Autenticidade Digital, Entidade Consumer, Modelo OAIS, Princípios FAIR.


Abstract

This text analyzes informational opacity in Information Units through the metaphor of the digital iceberg. It argues that a significant portion of documentary heritage remains invisible to digital ecosystems due to the lack of qualified digitization, standardized description, and interoperability. Based on archival authenticity principles and FAIR guidelines, it contends that overcoming this opacity requires integrating preservation practices, modeling the Consumer entity of the OAIS model, and adopting structured information reuse standards.

Keywords: Informational Opacity, Digital Authenticity, Consumer Entity, OAIS Model, FAIR Principles.


Referências

DURANTI, Luciana. Reliability and Authenticity: The Concepts and Their Implications. Archivaria, n. 39, p. 5–10, 1995.

DURANTI, Luciana. The Concept of Record in Interactive, Experiential and Dynamic Environments: The View of InterPARES. Archival Science, v. 13, p. 29–41, 2013.

INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION (ISO). ISO 14721:2012. Open Archival Information System (OAIS) – Reference Model. Geneva: ISO, 2012.

WILKINSON, Mark D. et al. The FAIR Guiding Principles for scientific data management and stewardship. Scientific Data, v. 3, 2016.

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