SIGAD de Negócio, o 3º cenário da Orientação Técnica 03 do Conarq: quando o sistema de negócio incorpora os requisitos relativos ao seu processo de negócio

SIGAD de Negócio, o 3º cenário da Orientação Técnica 03 do Conarq: quando o sistema de negócio incorpora os requisitos relativos ao seu processo de negócio

Integração entre processos organizacionais, gestão arquivística e preservação digital confiável

A Orientação Técnica nº 03 do Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ), publicada em 2015, representa um marco conceitual para a arquitetura de sistemas voltados à gestão e preservação de documentos arquivísticos digitais no Brasil. Entre os cenários apresentados, o 3º cenário se destaca por sua sofisticação institucional e tecnológica: trata-se da situação em que o sistema de negócio incorpora os requisitos de um SIGAD, conforme definidos no Modelo de Requisitos e-ARQ Brasil, passando a exercer, simultaneamente, funções de sistema de negócio e de sistema de gestão arquivística. Vejam que neste cenário, o SIGAD não existe, mas sim, é incorporado pelo sistema de negócio, através de seus requisitos necessários e concernentes ao processo de negócio em foco. 

Neste post, propomos aprofundar este cenário, reinterpretando-o como a emergência do SIGAD de Negócio, um sistema informacional híbrido, no qual a lógica do processo organizacional e a lógica arquivística passam a coexistir no mesmo ambiente sistêmico.


Processos de negócio: base conceitual

Na literatura de gestão e sistemas de informação, um processo de negócio é compreendido como u conjunto estruturado e mensurável de atividades relacionadas, que produzem uma saída específica para um cliente ou para outro processo, agregando valor a partir de insumos (inputs) organizacionais, aqui no nosso estudo, de documentos arquivísticos.

Essa definição, amplamente difundida na área de Business Process Management (BPM), enfatiza que processos de negócio:

  • São orientados a objetivos organizacionais;

  • Produzem resultados mensuráveis;

  • Envolvem regras, atores, sistemas e informações;

  • Geram registros e evidências documentais.

Em termos arquivísticos, isso é fundamental: todo processo de negócio é, por natureza, um processo produtor de documentos arquivísticos. Esses documentos são provas das atividades realizadas, das decisões tomadas e das responsabilidades assumidas.


Sistemas de negócio: definição e características

Um sistema de negócio pode ser definido como um sistema informatizado (um SID) desenvolvido para apoiar, automatizar e controlar processos de negócio específicos, tais como sistemas acadêmicos, sistemas de recursos humanos, sistemas financeiros, sistemas de prontuário eletrônico, sistemas de protocolo, de gestão de processos como o SEI, entre outros.

Esses sistemas têm como foco principal:

  • Eficiência operacional;

  • Automatização de fluxos de trabalho;

  • Apoio à tomada de decisão;

  • Registro transacional das atividades.

Historicamente, tais sistemas foram concebidos sem uma preocupação estrutural com os princípios arquivísticos, tratando documentos como meros dados operacionais, e não como documentos arquivísticos dotados de valor probatório, orgânico e de preservação digital sistêmica - PDS, contemplando a cadeia de custódia digital arquivística, a CCDA.


O e-ARQ Brasil e os requisitos de SIGAD

O Modelo de Requisitos e-ARQ Brasil, aprovado pelo CONARQ, estabelece os requisitos funcionais, arquivísticos e técnicos que um SIGAD deve atender para garantir:

  • Autenticidade;

  • Integridade;

  • Confiabilidade;

  • Usabilidade;

  • Manutenção da relação orgânica;

  • Controle do ciclo de vida dos documentos;

  • Classificação e avaliação arquivística;

  • Aplicação de tabela de temporalidade;

  • Destinação (eliminação ou recolhimento);

  • Registro de metadados arquivísticos.

Tradicionalmente, esses requisitos são implementados em sistemas específicos de gestão arquivística (SIGADs), separados dos sistemas de negócio.


O 3º cenário da Orientação Técnica nº 03/2015 do Conarq: o SIGAD de Negócio

No 3º cenário, a Orientação Técnica nº 03 descreve uma situação em que:

O sistema informatizado de processos de negócio incorpora as funcionalidades de um SIGAD e interopera com um RDC-Arq e/ou um sistema de storage.

Nesse modelo, não há mais uma separação rígida entre:

  • Sistema de negócio (operacional); e

  • SIGAD (arquivístico).

Em vez disso, emerge um novo tipo de sistema: o que aqui denominamos SIGAD de Negócio.

O que é o SIGAD de Negócio?

O SIGAD de Negócio é um sistema de informação organizacional que:

  • É nativamente orientado a processos de negócio;

  • Incorpora, de forma estrutural, os requisitos do e-ARQ Brasil;

  • Realiza a gestão arquivística dentro do próprio sistema de produção documental, no Sistema de Negócio, agora com requisitos arquivísticos, então, um SIGAD de Negócio;

  • Controla o ciclo de vida dos documentos no momento da sua produção;

  • Garante a autenticidade desde a origem (by design).

Ou seja, trata-se de uma arquitetura em que a gestão arquivística não é posterior nem externa, mas intrínseca ao próprio processo de negócio.


Implicações arquivísticas do SIGAD de Negócio

A adoção do SIGAD de Negócio representa uma mudança paradigmática na Arquivologia Digital:

1. Arquivística by design

A gestão arquivística passa a ser incorporada:

  • No desenho dos processos;

  • Na modelagem dos sistemas;

  • Na definição dos fluxos informacionais.

Isso aproxima-se do conceito de records management by design, em que os requisitos arquivísticos são considerados desde a concepção dos sistemas. Não somente, mas também de cada documento ou conjunto, já sabemos a temporalidade e destinação ao produzir cada documento, ou antes até, na gênese. 


2. Autenticidade desde a produção

No SIGAD de Negócio:

  • A captura arquivística é automática;

  • Os metadados arquivísticos são gerados no momento da transação;

  • Não existe o SIGAD neste cenário, mas sim, os requisitos de um SIGAD embutidos no Sistema de Negócio, ou seja, no SIGAD de Negócio;

  • A relação orgânica é preservada no próprio workflow.

Isso reduz riscos de perda de contexto, manipulação indevida e fragilização da prova documental.


3. Integração com o RDC-Arq

Mesmo no modelo de SIGAD de Negócio (cenário 3), a Orientação Técnica é clara:

Documentos de longa temporalidade devem ser encaminhados ao RDC-Arq.

O RDC-Arq permanece como:

  • Ambiente especializado de preservação digital;

  • Infraestrutura voltada à longevidade tecnológica;

  • Garantia de acesso de longo prazo;

  • Conformidade com a ISO 16363.

Assim, o SIGAD de Negócio não substitui o RDC-Arq, mas se integra a ele em uma arquitetura em camadas.


Exemplo típico: sistemas acadêmicos

A própria Orientação Técnica cita como exemplo os sistemas acadêmicos em universidades:

  • O sistema produz históricos escolares, boletins, matrículas, registros de frequência;

  • O próprio sistema faz a gestão arquivística;

  • Documentos de curta duração ficam em storage;

  • Documentos de longa duração são transferidos ao RDC-Arq.

Neste contexto, o sistema acadêmico deixa de ser apenas um sistema operacional e passa a ser, formalmente, um SIGAD de Negócio, pois:

  • Implementa classificação;

  • Aplica temporalidade;

  • Garante autenticidade;

  • Controla destinação;

  • Mantém metadados arquivísticos.


Implicações institucionais e normativas

A adoção do SIGAD de Negócio exige:

  • Governança arquivística forte;

  • Participação ativa de arquivistas na especificação de sistemas;

  • Alinhamento entre TI, áreas finalísticas e arquivos;

  • Políticas institucionais claras de gestão e preservação digital.

Do ponto de vista normativo, o SIGAD de Negócio:

  • Deve estar plenamente aderente ao e-ARQ Brasil;

  • Deve respeitar as diretrizes das Resoluções do CONARQ;

  • Deve prever interoperabilidade com RDC-Arq.


O SIGAD de Negócio como maturidade arquivística digital

Do ponto de vista da maturidade organizacional, o 3º cenário representa:

  • Um nível avançado de integração entre gestão e preservação;

  • A superação da visão de que a Arquivologia é apenas uma etapa posterior, agora, estamos na produção, na concepção, na gênese;

  • A incorporação da Arquivologia como componente estrutural dos sistemas corporativos.

Trata-se de um modelo particularmente relevante para:

  • Grandes instituições;

  • Universidades;

  • Hospitais;

  • Órgãos com sistemas corporativos complexos;

  • Ambientes de governo digital.


Conclusão

O 3º cenário da Orientação Técnica nº 03 do CONARQ não é apenas uma alternativa técnica: ele representa uma evolução conceitual da Arquivologia Digital, na qual os sistemas de negócio passam a ser, também, sistemas arquivísticos, e em especial em cenários onde não exista um SIGAD, mas sim, Sistemas de Negócio que precisam ser convertidos em SIGAD de Negócio.

O SIGAD de Negócio materializa a convergência entre:

  • Processos organizacionais;

  • Sistemas de informação;

  • Princípios arquivísticos;

  • Preservação digital confiável.

Neste modelo, a gestão arquivística deixa de ser periférica e passa a ser estrutural, nativa e estratégica, contribuindo para a transparência, a accountability, a memória institucional e a preservação do patrimônio documental digital.


📚 Fonte principal:
Conselho Nacional de Arquivos (CONARQ). Câmara Técnica de Documentos Eletrônicos. Orientação Técnica nº 03 – Cenários de uso de RDC-Arq em conjunto com o SIGAD. Novembro de 2015.


Prof. Daniel Flores - Grupo de Pesquisa CNPq UFSM Ged/A - Documentos Digitais

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