Harvesting e Interoperabilidade: Integração entre Arquivos, Bibliotecas e Museus
Harvesting e Interoperabilidade: Integração entre Arquivos, Bibliotecas e Museus
Por Daniel Flores – PPGCI/UFAL & Grupo de Pesquisa CNPq UFAL PDS & Ged/A
Blog Documentos Arquivísticos Digitais
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A superação da opacidade informacional e a integração entre inteligência artificial e bases documentais estruturadas exigem um componente técnico frequentemente subestimado: a interoperabilidade sistêmica. No contexto das Unidades de Informação, essa interoperabilidade é viabilizada por mecanismos de colheita automatizada de metadados, conhecidos como harvesting, e por protocolos padronizados de troca de informações.
Um dos principais instrumentos técnicos nesse campo é o Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting (OAI-PMH), desenvolvido no início dos anos 2000 com o objetivo de permitir interoperabilidade entre repositórios digitais distribuídos. O protocolo estabelece um modelo simples e extensível de colheita de metadados em formatos estruturados, como Dublin Core, possibilitando que serviços agregadores coletem registros de múltiplas instituições e os integrem em ambientes de busca federada.
A lógica do harvesting transforma o acesso isolado em acesso integrado. Em vez de consultar individualmente cada repositório institucional, sistemas agregadores podem coletar metadados de arquivos, bibliotecas e museus, consolidando-os em camadas unificadas de descoberta. Essa arquitetura favorece a criação de ecossistemas informacionais interinstitucionais, ampliando visibilidade e potencial de reuso.
No entanto, a eficácia do harvesting depende da qualidade e padronização dos metadados disponibilizados. A adoção de normas como ISAD(G), ISAAR(CPF) e Dublin Core é condição essencial para garantir consistência descritiva. Sem normalização, a interoperabilidade torna-se superficial, comprometendo a integridade contextual dos registros.
Do ponto de vista arquivístico, a interoperabilidade não pode comprometer autenticidade. Conforme Duranti (1995), a autenticidade depende da preservação de identidade e integridade ao longo da cadeia de custódia. A exportação estruturada de metadados deve, portanto, manter vínculos hierárquicos e contextuais, evitando fragmentação documental.
A integração entre harvesting e a entidade Consumer do Modelo OAIS (ISO, 2012) revela dimensão estratégica. A entidade Consumer não deve limitar-se à entrega passiva de pacotes informacionais, mas operar como camada dinâmica de disseminação estruturada e interoperável. Ao incorporar protocolos de colheita automatizada, amplia-se a capacidade de difusão e integração sistêmica das informações preservadas.
Essa convergência é particularmente relevante no universo GLAM (Galleries, Libraries, Archives and Museums). Historicamente organizadas em silos institucionais, essas instituições compartilham objetivos comuns de preservação e difusão da memória social. A interoperabilidade via harvesting permite articular descrições arquivísticas, registros bibliográficos e metadados museológicos em ambientes integrados de descoberta.
No contexto contemporâneo de inteligência artificial e recuperação aumentada, o harvesting desempenha papel estruturante. Sistemas de RAG dependem de bases indexáveis e estruturadas para operar com eficiência. A ausência de interoperabilidade limita o alcance dessas arquiteturas e perpetua o iceberg informacional. Ao contrário, quando metadados são disponibilizados em formatos abertos e colhidos automaticamente, cria-se infraestrutura robusta para integração entre preservação, acesso e inteligência artificial.
Assim, o harvesting não constitui apenas mecanismo técnico de troca de dados, mas elemento estratégico de governança informacional. Ele viabiliza a transição de repositórios isolados para ecossistemas integrados, reforçando a transparência estruturada e ampliando o alcance social das Unidades de Informação.
Resumo
O texto analisa o papel do harvesting e da interoperabilidade na integração entre Arquivos, Bibliotecas e Museus. Argumenta-se que protocolos como OAI-PMH permitem a colheita estruturada de metadados e favorecem ambientes de busca federada. Defende-se que a integração entre harvesting, autenticidade arquivística e modelagem da entidade Consumer do Modelo OAIS constitui elemento estratégico para superar a opacidade informacional e fortalecer a transparência estruturada.
Palavras-chave: Harvesting, Interoperabilidade, OAI-PMH, Entidade Consumer, Unidades de Informação.
Abstract
This text analyzes the role of harvesting and interoperability in integrating Archives, Libraries, and Museums. It argues that protocols such as OAI-PMH enable structured metadata harvesting and support federated search environments. It contends that integrating harvesting, archival authenticity, and modeling of the Consumer entity within the OAIS model constitutes a strategic element to overcome informational opacity and strengthen structured transparency.
Keywords: Harvesting, Interoperability, OAI-PMH, Consumer Entity, Information Units.
Referências
DURANTI, Luciana. Reliability and Authenticity: The Concepts and Their Implications. Archivaria, n. 39, p. 5–10, 1995.
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION (ISO). ISO 14721:2012. Open Archival Information System (OAIS) – Reference Model. Geneva: ISO, 2012.
OPEN ARCHIVES INITIATIVE. The Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting (OAI-PMH). Disponível em: https://www.openarchives.org/pmh/. Acesso em: 20 jan. 2026.
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