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Introdução à Curadoria Digital: compreendendo o ciclo de vida dos objetos digitais


Introdução à Curadoria Digital: compreendendo o ciclo de vida dos objetos digitais

Material de apoio aos estudantes da disciplina Curadoria Digital – Curso de Biblioteconomia – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

Março de 2025


1. Por que falar em Curadoria Digital?

Vivemos cercados por objetos digitais.

Fotografias que fazemos com o celular, documentos que produzimos no computador, trabalhos acadêmicos, vídeos, mensagens, e-mails, bases de dados, livros digitais, páginas da internet e documentos produzidos pelas instituições são apenas alguns exemplos.

Grande parte das informações que produzimos atualmente já nasce em formato digital.

Mas existe uma questão importante:

o fato de uma informação ser digital significa que ela estará disponível para sempre?

A resposta é não.

Um arquivo digital pode ser apagado acidentalmente. Um computador pode apresentar defeito. Um disco rígido pode ser danificado. Um serviço de armazenamento pode deixar de existir. Um formato de arquivo pode se tornar obsoleto. Um programa necessário para abrir determinado documento pode desaparecer. Uma instituição pode perder informações sobre a origem, o contexto ou a finalidade de determinado objeto digital.

Por isso, cuidar de objetos digitais exige mais do que simplesmente armazená-los.

É nesse contexto que surge a Curadoria Digital.

De maneira bastante introdutória, podemos entender a Curadoria Digital como um conjunto de ações e cuidados realizados ao longo do tempo para gerenciar, manter, preservar, tornar compreensíveis e possibilitar o acesso e o uso de objetos digitais.

O Digital Curation Centre (DCC) destaca justamente a necessidade de realizar ações de curadoria e preservação durante todo o ciclo de vida dos materiais digitais. (DCC)

Assim, podemos começar a pensar:

Curadoria Digital não é apenas guardar um arquivo digital. É cuidar dele ao longo de sua existência.


2. O que é um objeto digital?

Antes de compreender a Curadoria Digital, precisamos pensar no que estamos tentando cuidar.

Um objeto digital pode ser, de maneira simples, qualquer informação registrada e representada em meio digital.

São exemplos:

  • uma fotografia em formato JPEG;

  • um documento de texto;

  • um arquivo PDF;

  • uma planilha;

  • um vídeo;

  • um áudio;

  • uma página web;

  • um e-mail;

  • um conjunto de dados;

  • um trabalho acadêmico;

  • um documento administrativo produzido por uma universidade;

  • uma publicação em uma plataforma digital.

Alguns objetos são muito simples. Outros são bastante complexos.

Por exemplo, uma fotografia pode parecer apenas uma imagem. Entretanto, para que ela continue sendo compreendida e utilizada no futuro, pode ser importante conhecer informações como:

  • quem produziu a fotografia;

  • quando foi produzida;

  • onde foi produzida;

  • qual equipamento foi utilizado;

  • qual é o formato do arquivo;

  • qual é o seu contexto;

  • quem possui os direitos sobre ela;

  • como ela foi armazenada;

  • se sofreu alguma alteração.

Essas informações adicionais são importantes porque o arquivo digital sozinho pode não ser suficiente para compreendermos plenamente o objeto.

É aí que entram os metadados e outras informações necessárias à sua gestão, compreensão e preservação.


3. Curadoria Digital é a mesma coisa que preservação digital?

Não exatamente.

Essa é uma distinção importante para começarmos a disciplina.

A preservação digital está relacionada às ações necessárias para garantir que objetos digitais possam continuar existindo, sendo compreendidos e acessados ao longo do tempo.

A Curadoria Digital possui uma perspectiva mais ampla.

Ela considera o objeto digital desde antes ou desde o momento de sua criação, passando por sua organização, descrição, armazenamento, preservação, acesso, utilização e eventual transformação.

Por isso, podemos dizer que:

A preservação digital é uma parte muito importante da Curadoria Digital, mas Curadoria Digital não se limita à preservação.

O próprio DCC utiliza uma abordagem de ciclo de vida justamente para identificar as diferentes ações que precisam ser planejadas e realizadas ao longo da existência do material digital. (DCC)


4. Por que pensar em um ciclo de vida?

Imagine que uma biblioteca receba hoje um conjunto de 5.000 fotografias digitais de um projeto de pesquisa.

Poderíamos simplesmente copiar as fotografias para um computador e dizer:

“Pronto. Está tudo guardado.”

Mas será que está?

Algumas perguntas surgem imediatamente:

  • Quem produziu essas fotografias?

  • Quando foram produzidas?

  • Qual é o assunto de cada uma?

  • Quais fotografias devem ser mantidas?

  • Existem fotografias duplicadas?

  • Qual é o formato dos arquivos?

  • Onde elas serão armazenadas?

  • Existe uma cópia de segurança?

  • Como serão descritas?

  • Quem poderá acessá-las?

  • Existem restrições de uso?

  • O formato continuará sendo legível no futuro?

  • O que acontecerá se o sistema utilizado para armazená-las deixar de existir?

Percebemos, então, que cuidar dos objetos digitais exige planejamento e continuidade.

É justamente essa ideia que está por trás da abordagem de ciclo de vida.

O ciclo de vida permite visualizar as diferentes ações necessárias para que os materiais digitais sejam adequadamente gerenciados, preservados e disponibilizados.


5. O modelo do DCC

Um dos modelos mais conhecidos para compreender a Curadoria Digital é o DCC Curation Lifecycle Model, desenvolvido no âmbito do Digital Curation Centre (DCC).

O modelo foi apresentado por Sarah Higgins, em 2008, no artigo The DCC Curation Lifecycle Model, publicado no International Journal of Digital Curation. O modelo foi concebido como uma ferramenta genérica para auxiliar no planejamento das atividades de curadoria e preservação de materiais digitais. (IjdC)

O modelo apresenta uma visão geral das etapas e ações que podem estar envolvidas na gestão e preservação de objetos digitais.

Mais importante do que decorar todas as palavras que aparecem no modelo é compreender sua ideia central:

O objeto digital precisa ser acompanhado ao longo de seu ciclo de vida.

O DCC apresenta ações que ocorrem ao longo de todo o ciclo e outras que acontecem de forma sequencial ou conforme as circunstâncias. (DCC)


6. As principais etapas do ciclo

Para nossa primeira aproximação, podemos compreender algumas das principais ações do modelo de maneira bastante simples.

6.1 Conceituar

Antes mesmo de criar um objeto digital, é necessário pensar e planejar.

O que será produzido?

Para qual finalidade?

Como os dados serão coletados?

Como serão armazenados?

Que informações precisarão acompanhá-los?

Por exemplo, antes de iniciar um projeto para digitalizar fotografias de um arquivo, é importante pensar sobre os equipamentos, formatos, armazenamento, descrição e preservação.


6.2 Criar ou receber

É o momento em que o objeto digital é produzido ou recebido.

Pode ser uma fotografia feita por um pesquisador, um TCC produzido por um estudante, um documento eletrônico produzido pela universidade ou um conjunto de dados recebido por uma biblioteca.

Nesse momento, informações importantes sobre o objeto também podem ser registradas.

Entre elas estão os metadados.


6.3 Avaliar e selecionar

Nem tudo que é produzido digitalmente necessariamente precisará ser mantido para sempre.

É necessário avaliar e selecionar aquilo que deverá receber ações de curadoria e preservação de longo prazo.

Essa etapa envolve critérios, políticas e responsabilidades.

Pense, por exemplo, em uma biblioteca que recebe milhares de arquivos digitais. Será que todos deverão ser preservados indefinidamente?

Essa é uma questão de curadoria.


6.4 Ingerir

A palavra pode parecer estranha inicialmente.

No contexto da Curadoria Digital, ingerir significa, de maneira simplificada, transferir ou incorporar os objetos digitais para um ambiente apropriado e confiável de gestão e preservação.

É uma espécie de entrada controlada do objeto no ambiente em que ele será gerenciado.


6.5 Preservar

Aqui encontramos uma das ações mais conhecidas.

Preservar significa realizar ações para manter o objeto digital disponível, íntegro, compreensível e utilizável ao longo do tempo.

Isso pode envolver diferentes estratégias, tecnologias, políticas e procedimentos.

Importante:

preservar não significa simplesmente fazer uma cópia.

Uma cópia pode ajudar, mas a preservação digital envolve muitos outros cuidados.


6.6 Armazenar

Os objetos digitais precisam estar armazenados de maneira adequada e segura.

Isso envolve pensar em infraestrutura, segurança, cópias, controle e confiabilidade do armazenamento.

Um arquivo que está simplesmente “salvo em algum computador” não está necessariamente sendo adequadamente curado.


6.7 Acessar, usar e reutilizar

A Curadoria Digital não existe apenas para guardar objetos.

É preciso também permitir que eles possam ser encontrados, acessados, utilizados e, quando apropriado, reutilizados.

Afinal, qual seria o sentido de preservar uma coleção digital se ninguém conseguisse encontrá-la ou utilizá-la?

O acesso, portanto, faz parte da preocupação da Curadoria Digital.


6.8 Transformar

Em alguns casos, pode ser necessário transformar um objeto digital.

Um exemplo bastante conhecido é a migração de um arquivo para outro formato, buscando mantê-lo acessível diante de mudanças tecnológicas.

Também podemos produzir novos objetos a partir de objetos existentes.

A transformação, portanto, pode fazer parte do ciclo de vida dos objetos digitais.


7. E os metadados?

Se existe uma palavra que vocês provavelmente encontrarão muitas vezes ao longo desta disciplina, é:

METADADOS.

De maneira bastante simples, podemos pensar nos metadados como informações que ajudam a descrever, identificar, contextualizar, gerenciar e utilizar um objeto digital.

Por exemplo, pense em uma fotografia no seu celular.

Além da imagem em si, podem existir informações sobre:

  • data;

  • horário;

  • localização;

  • equipamento;

  • formato;

  • tamanho;

  • autoria.

Essas informações ajudam a compreender e gerenciar o objeto.

Na Curadoria Digital, a descrição e a representação da informação acompanham o ciclo de vida e podem envolver diferentes tipos de metadados, inclusive administrativos, descritivos, técnicos, estruturais e de preservação. (Redalyc)

Por isso, podemos começar a perceber uma coisa importante:

Um objeto digital não é apenas o arquivo que vemos na tela. O contexto e as informações que permitem compreendê-lo e gerenciá-lo também são fundamentais.


8. O ciclo não é simplesmente uma linha reta

Um cuidado importante para nossa disciplina:

não devemos imaginar o ciclo de vida como uma sequência rígida em que cada objeto passa uma única vez por cada etapa.

O próprio DCC apresenta o modelo como uma visão de alto nível e indica que determinadas ações acompanham todo o ciclo, enquanto outras ocorrem conforme as necessidades. (DCC)

Um objeto pode ser:

  • reavaliado;

  • transformado;

  • migrado para outro formato;

  • novamente descrito;

  • submetido a novas ações de preservação;

  • disponibilizado para novos usos;

  • relacionado a novos objetos.

Assim, a ideia de ciclo é importante porque nos ajuda a pensar na continuidade.

O objeto digital não deixa de exigir cuidados simplesmente porque foi armazenado.


9. Um exemplo simples: o TCC de um estudante

Vamos imaginar um exemplo próximo da realidade de vocês.

Um estudante de Biblioteconomia produz um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Ele escreve o trabalho, salva o documento no computador e o entrega à universidade.

O que acontece depois?

A universidade precisa pensar em várias questões:

Criação:
Como o TCC foi produzido? Qual é o arquivo original?

Avaliação e seleção:
O TCC será incorporado ao acervo institucional?

Descrição:
Quais informações permitirão que outras pessoas encontrem esse trabalho?

Armazenamento:
Onde o arquivo será mantido?

Preservação:
Como garantir que ele continue disponível no futuro?

Acesso:
Como estudantes e pesquisadores poderão encontrá-lo?

Uso e reutilização:
Como esse conhecimento poderá ser utilizado em outras pesquisas?

Percebam que guardar o PDF é apenas uma parte do problema.

A Curadoria Digital nos ajuda justamente a pensar em todas essas dimensões.


10. Por que isso interessa à Biblioteconomia?

Talvez vocês estejam se perguntando:

“Mas por que estou estudando Curadoria Digital em Biblioteconomia?”

A resposta é simples:

As bibliotecas estão cada vez mais envolvidas com informação digital.

Bibliotecas digitais, repositórios institucionais, bases de dados, livros eletrônicos, trabalhos acadêmicos, fotografias, documentos digitalizados, dados de pesquisa e diversos outros recursos precisam ser organizados, descritos, preservados e disponibilizados.

Portanto, o bibliotecário contemporâneo não trabalha apenas com livros impressos.

Ele também participa de processos relacionados à gestão, organização, descrição, acesso, preservação e curadoria de informações digitais.

A Curadoria Digital amplia, portanto, nossa capacidade de compreender esses novos objetos informacionais.


11. O que devemos guardar desta primeira leitura?

Neste primeiro contato com o tema, não é necessário decorar todas as etapas do modelo.

O mais importante é compreender algumas ideias fundamentais:

1.

A informação digital não está necessariamente garantida para sempre.

2.

Guardar não é o mesmo que preservar.

3.

A Curadoria Digital acompanha o objeto digital ao longo do seu ciclo de vida.

4.

Metadados e informações de contexto são fundamentais para compreender e gerenciar objetos digitais.

5.

Preservação e acesso fazem parte das preocupações da Curadoria Digital.

6.

O ciclo de vida é uma forma de organizar e planejar as ações necessárias.

7.

O modelo do DCC é uma referência para pensar essas ações, e não uma receita rígida que precisa ser aplicada exatamente da mesma maneira em todos os contextos.


12. Para pensar...

Agora, olhe para algum objeto digital que faça parte do seu cotidiano.

Pode ser uma fotografia do celular, um trabalho acadêmico, um vídeo, um documento, um e-mail ou qualquer outro arquivo.

Pergunte a si mesmo:

Se eu precisar encontrar esse objeto daqui a 10 anos, ele ainda estará disponível?

E, mais importante:

Se eu encontrar o arquivo daqui a 10 anos, ainda saberei o que ele é, quem o produziu, quando foi produzido, qual era sua finalidade e como utilizá-lo?

Essas perguntas nos aproximam do pensamento da Curadoria Digital.

A partir delas, começamos a perceber que cuidar da informação digital é muito mais do que simplesmente armazenar arquivos.

É pensar no presente, no futuro e nas possibilidades de acesso, compreensão, preservação e uso da informação.


Referências básicas

DIGITAL CURATION CENTRE – DCC. What is digital curation? Edinburgh: Digital Curation Centre. Disponível em: Digital Curation Centre – What is digital curation?. Acesso em: mar. 2025.

DIGITAL CURATION CENTRE – DCC. Curation Lifecycle Model. Edinburgh: Digital Curation Centre. Disponível em: Digital Curation Centre – Curation Lifecycle Model. Acesso em: mar. 2025.

HIGGINS, Sarah. The DCC Curation Lifecycle Model. International Journal of Digital Curation, v. 3, n. 1, p. 134–140, 2008. DOI: 10.2218/ijdc.v3i1.48. Disponível em: International Journal of Digital Curation – artigo de Sarah Higgins.


Uma última observação aos estudantes

Este material é uma introdução ao tema. A Curadoria Digital é um campo amplo e envolve muitos outros conceitos, modelos, padrões, tecnologias e práticas.

Por enquanto, nosso objetivo é mais simples:

começar a compreender por que precisamos cuidar dos objetos digitais e por que esse cuidado deve ser pensado ao longo de todo o seu ciclo de vida.

Nas próximas aulas, vamos aprofundar essas questões e conhecer outros conceitos e modelos relacionados à Curadoria Digital.

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