AHG Plugins para AtoM: uma leitura arquivística e tecnológica — 04 ahgIiifPlugin: quando acessar um documento digital deixa de significar simplesmente abrir um arquivo
AHG Plugins para AtoM: uma leitura arquivística e tecnológica — 04
ahgIiifPlugin: quando acessar um documento digital deixa de significar simplesmente abrir um arquivo
Por Daniel Flores
Líder do Grupo de Pesquisa CNPq PDS & Ged/A – UFAL
Nos três primeiros posts desta série discutimos inteligência artificial, governança das inferências e anotações digitais.
Agora chegamos a uma camada que, embora possa parecer muito mais conhecida, talvez seja uma das mais importantes para compreender o que está acontecendo com os objetos digitais nos sistemas arquivísticos contemporâneos:
IIIF — International Image Interoperability Framework.
E aqui é preciso começar desfazendo um equívoco.
IIIF não é um visualizador.
Um visualizador é uma aplicação.
IIIF é uma arquitetura de interoperabilidade.
A diferença parece semântica.
Não é.
O problema começa no próprio conceito de objeto digital
Imagine um livro digitalizado.
Temos um registro arquivístico.
Temos um objeto digital.
Mas esse objeto pode possuir dezenas ou centenas de páginas.
Cada página possui dimensões próprias, imagens, textos, regiões, eventualmente OCR, transcrições, anotações e relações com outras partes do objeto.
Como representar essa estrutura de maneira que diferentes aplicações possam compreendê-la?
Como permitir que um visualizador diferente daquele fornecido pela instituição consiga apresentar o objeto?
Como apontar diretamente para uma determinada página?
E, mais interessante ainda:
como apontar para uma determinada região de uma página?
É justamente nesse espaço que o IIIF se torna particularmente importante.
A especificação Presentation API 3.0 define uma estrutura na qual um Manifest representa o objeto composto, enquanto Canvases representam vistas ou partes desse objeto. Sobre esses Canvases podem ser associados recursos de imagem, áudio, vídeo e outras informações por meio de Annotations.
Ou seja:
o documento deixa de ser pensado apenas como um arquivo que precisa ser aberto.
Ele passa a ser pensado também como uma estrutura navegável e endereçável na Web.
Manifest não é simplesmente “mais um JSON”
Essa distinção é fundamental.
Um Manifest IIIF não deve ser confundido com uma simples exportação de metadados.
Ele descreve a estrutura necessária para que um cliente possa apresentar um objeto digital composto.
Um livro pode possuir um Manifest.
O Manifest pode possuir dezenas de Canvases.
Cada Canvas pode representar uma página.
E cada página pode possuir recursos associados.
A especificação IIIF utiliza justamente essa estrutura para representar livros, manuscritos, jornais, fotografias, mapas, obras de arte e outros objetos compostos.
Isso produz uma consequência muito importante para os arquivos:
a unidade de acesso pode ser muito mais granular do que a unidade do registro descritivo.
E essa diferença é extremamente relevante.
É aqui que o ahgIiifPlugin se torna interessante
Dentro do ecossistema AHG para AtoM, IIIF aparece como uma camada específica de interoperabilidade e apresentação, integrada ao conjunto de extensões que amplia o AtoM sem transformar necessariamente o núcleo da aplicação.
A própria arquitetura declarada pelo AHG separa a base atom-framework dos plugins funcionais, incluindo módulos específicos para IIIF, display, galerias e modelos 3D. A compatibilidade declarada atualmente tem como alvo AtoM 2.10.x, PHP 8.3, MySQL 8.x e Elasticsearch 7.x.
Essa arquitetura é importante.
Porque estamos falando de uma estratégia diferente daquela de modificar profundamente o core do AtoM.
O plugin funciona como uma camada de extensão.
E essa opção arquitetural merece ser observada com atenção.
Mas IIIF não é preservação digital
Aqui precisamos fazer uma distinção ainda mais importante.
IIIF não preserva o objeto digital.
IIIF não substitui um repositório arquivístico confiável.
Não substitui OAIS.
Não substitui PREMIS.
Não substitui um RDC-Arq.
Não substitui mecanismos de fixidez, integridade, controle de versões, gestão de eventos de preservação ou uma política institucional de preservação digital.
IIIF responde principalmente a outro problema:
como disponibilizar, estruturar, referenciar e interoperar com representações digitais na Web?
Essa diferença é essencial para uma arquitetura de Preservação Digital Sistêmica.
Podemos ter:
preservação → gestão → descrição → acesso → representação → interoperabilidade.
São camadas relacionadas.
Mas não são a mesma coisa.
E existe uma questão arquivística ainda mais profunda
O IIIF introduz uma possibilidade que considero extremamente importante:
a capacidade de referenciar partes específicas de um objeto.
A especificação admite, por exemplo, Canvases como referências a páginas ou vistas e também mecanismos para identificar regiões específicas, inclusive por meio de seletores espaciais.
Isso significa que o usuário não precisa necessariamente dizer:
“Estou falando daquela fotografia.”
Pode ser possível dizer:
“Estou falando desta região específica desta representação.”
Parece uma pequena diferença.
Mas pense nas consequências para pesquisa histórica.
Um mapa.
Uma fotografia.
Um manuscrito.
Um jornal.
Uma planta arquitetônica.
Uma página de processo administrativo.
Um documento cartográfico.
Uma coleção fotográfica.
Agora pense em OCR.
Pense em NER.
Pense em anotações.
Pense em transcrições.
Pense em georreferenciamento.
Pense em IA.
Começamos a perceber que o objeto digital pode adquirir uma granularidade semântica muito maior.
E aqui o post anterior sobre Annotations volta à cena
No post 03 discutimos a anotação digital.
Agora podemos perceber por que aquela discussão era importante.
IIIF e Web Annotation não são mundos independentes.
O próprio modelo IIIF 3.0 utiliza Web Annotations para associar recursos a Canvases e admite anotações sobre recursos ou partes deles.
Portanto, podemos começar a construir uma cadeia conceitual:
registro arquivístico → objeto digital → Manifest → Canvas → região → Annotation → entidade → conhecimento.
E isso muda profundamente a maneira de pensar o acesso.
O usuário deixa de ser apenas consumidor de uma representação pronta.
Ele pode passar a interagir com partes identificáveis e relacionáveis do objeto.
Mas cuidado: representação não é o objeto preservado
Esse ponto, para nós, é inegociável.
Um Manifest IIIF é uma representação estruturada para apresentação e interoperabilidade.
Um Canvas é uma representação de uma vista.
Uma Annotation é uma relação ou informação associada.
Nada disso significa que a camada IIIF possa ser tomada automaticamente como a própria materialidade digital preservada.
Essa distinção é fundamental para a Cadeia de Custódia Digital Arquivística.
Precisamos saber:
qual é o objeto sob custódia?
qual é a sua representação?
qual é o derivado de acesso?
qual é a camada de anotação?
qual é a informação produzida posteriormente?
qual delas precisa ser preservada?
qual delas precisa possuir proveniência própria?
A arquitetura tecnológica precisa tornar essas relações demonstráveis.
O problema não termina quando o Manifest funciona
E aqui entra uma dimensão que considero particularmente importante.
Não basta produzir um Manifest tecnicamente válido.
Precisamos perguntar:
o que exatamente está sendo representado?
Se um registro arquivístico possui cinco objetos digitais diferentes, teremos um Manifest para cada um?
Ou um Manifest composto?
Se uma fotografia possui diferentes versões de acesso, qual delas é referenciada?
Se um PDF contém 300 páginas, o Canvas representa cada página?
Se existe OCR, ele está associado ao Canvas?
Se há uma transcrição humana, como ela se diferencia de uma transcrição produzida por IA?
Se existe uma anotação de pesquisador, ela é pública?
Se o objeto possui restrição de acesso, como o IIIF respeita essa restrição?
E se o objeto for substituído?
O URI continua apontando para a mesma coisa?
São questões que parecem técnicas.
Mas são, na realidade, questões de gestão arquivística, autenticidade, identidade e acesso.
E há uma questão atual no próprio AHG
O desenvolvimento do ecossistema não está livre de problemas de integração.
Uma issue do atom-ahg-plugins, por exemplo, registrou um problema no uso da galeria IIIF em conjunto com filtros de mídia do AtoM: determinados resultados podiam aparecer duplicados na interface quando onlyMedia ou hasDigital estavam ativos. O problema foi tratado com uma guarda na lógica da galeria.
Pode parecer um detalhe de interface.
Não é irrelevante.
Ele demonstra algo importante sobre arquiteturas de extensão:
interoperabilidade não acontece apenas entre padrões. Ela também precisa acontecer entre componentes de software.
Um padrão aberto não elimina automaticamente problemas de integração.
E para onde isso pode nos levar?
Quando colocamos na mesma arquitetura:
AtoM + IIIF + Web Annotation + OCR + NER + IA + APIs + identificadores persistentes + RiC
começamos a enxergar uma possibilidade muito mais ampla.
O arquivo deixa de ser apenas um lugar onde encontramos descrições e arquivos para download.
Ele pode se transformar em uma infraestrutura de objetos digitais endereçáveis, relacionáveis, anotáveis, interoperáveis e reutilizáveis.
Isso é muito mais interessante do que simplesmente oferecer um “visualizador de imagens”.
E talvez seja essa a verdadeira contribuição que devemos investigar.
IIIF não é o fim. É uma camada.
Na perspectiva da Preservação Digital Sistêmica, precisamos resistir à tentação de transformar qualquer tecnologia nova em solução universal.
IIIF não resolve preservação.
AtoM não resolve preservação.
Archivematica não resolve sozinho preservação.
IA não resolve descrição.
RAG não resolve contexto arquivístico.
E um Manifest não garante autenticidade.
Cada componente precisa ocupar seu lugar na arquitetura.
É justamente a articulação entre essas camadas que pode produzir um ambiente institucionalmente confiável.
Por isso, nossa pergunta não é:
“O AtoM agora tem IIIF?”
Nossa pergunta é muito mais incômoda:
“Que transformação ocorre na arquitetura do acesso arquivístico quando o documento digital deixa de ser tratado apenas como um arquivo e passa a ser tratado como um objeto estruturado, endereçável e interoperável na Web?”
Talvez seja aí que esteja uma das grandes mudanças da Arquivologia Digital.
Não apenas abrir o documento.
Mas conseguir dizer, com precisão:
qual documento, qual representação, qual parte, qual relação, qual anotação, qual contexto e qual responsabilidade institucional estão sendo acessados.
E isso já não é apenas tecnologia.
É Arquivologia.
PDS & Ged/A – UFAL
Preservação Digital Sistêmica, Cadeia de Custódia Digital Arquivística e transformação tecnológica dos arquivos.
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