AHG Plugins para AtoM: uma leitura arquivística e tecnológica — 03
ahgAnnotationsPlugin: quando o objeto digital deixa de ser apenas visualizado e passa a ser anotado
Por Daniel Flores
Líder do Grupo de Pesquisa CNPq PDS & Ged/A – UFAL
Depois de discutirmos o ahgAIPlugin e, em seguida, as questões de rastreabilidade, conformidade e governança da inteligência artificial, chegamos a um componente que pode parecer muito mais simples, mas que possui consequências importantes para a pesquisa e para a própria compreensão do objeto digital: a anotação.
Anotar não é simplesmente escrever uma observação sobre uma imagem.
No universo das coleções digitais, uma anotação pode estabelecer uma relação explícita entre uma determinada região de um documento, uma informação textual, uma pessoa, um lugar, um conceito, uma transcrição, uma classificação ou uma interpretação produzida por um pesquisador.
É justamente aí que a discussão começa a ficar interessante para a Arquivologia.
A anotação como uma camada de informação
A proposta atualmente desenvolvida pelo ecossistema AHG aproxima-se do modelo W3C Web Annotation, articulando-o ao universo IIIF e a visualizadores como Mirador e Annotorious.
Isso significa que a anotação pode deixar de estar presa à lógica tradicional de uma “nota” associada genericamente ao documento.
Ela pode possuir um target, um body, uma motivação, um criador, uma temporalidade e uma localização específica no objeto.
Em termos mais concretos:
uma pessoa pode selecionar uma determinada área de uma fotografia histórica e associá-la a uma identificação;
um pesquisador pode marcar um trecho de um manuscrito;
uma instituição pode destacar uma região específica de um mapa;
um projeto de pesquisa pode produzir uma interpretação sobre determinado fragmento;
e, futuramente, uma entidade identificada automaticamente por NER pode ser relacionada diretamente a um registro de autoridade.
Essa última possibilidade é particularmente importante.
O próprio roadmap técnico do AHG prevê a ligação entre entidades extraídas por NER e anotações, utilizando SpecificResource como corpo da anotação e apontando para registros de autoridade.
Aqui começamos a perceber uma mudança de paradigma.
O objeto digital não é mais apenas algo que o usuário consulta. Ele passa a ser uma superfície estruturada sobre a qual diferentes camadas de conhecimento podem ser produzidas.
Mas há uma questão arquivística fundamental
Precisamos tomar cuidado para não confundir anotação, descrição arquivística e documento arquivístico.
São coisas diferentes.
Uma anotação produzida por um pesquisador não transforma automaticamente a interpretação desse pesquisador em descrição arquivística.
Uma entidade reconhecida por inteligência artificial não se transforma, pelo simples fato de ter sido identificada, em uma autoridade arquivística validada.
E uma região destacada em uma imagem não altera o documento original.
Temos, portanto, uma relação entre camadas:
objeto digital → representação → anotação → interpretação → contextualização.
Essa distinção é essencial para uma arquitetura de preservação digital confiável.
A anotação deve ser compreendida como informação relacionada ao objeto, e não como uma adulteração do objeto preservado.
O que existe hoje?
A implementação do AHG já trabalha com estruturas do modelo W3C, TextualBody, FragmentSelector, targets baseados em IIIF Canvas, anotações SVG, múltiplos targets, diferentes motivações e exportação/importação em estruturas IIIF AnnotationList.
Mas aqui está um ponto que considero metodologicamente importante em nossa análise:
não devemos apresentar como concluído aquilo que ainda está em desenvolvimento.
A própria documentação do projeto registra lacunas importantes.
Ainda estão em evolução aspectos como SpecificResource, seletores de texto baseados em OCR, anotações temporais para áudio e vídeo, versionamento, colaboração, moderação, histórico de alterações, controle de concorrência e maior conformidade com o Web Annotation Protocol.
Isso não diminui a proposta.
Ao contrário.
É justamente o que torna interessante acompanhar o projeto como objeto de pesquisa tecnológica.
Estamos observando uma arquitetura em construção.
E onde isso toca a Preservação Digital Sistêmica?
Aqui está, para nós, uma questão central.
Na Cadeia de Custódia Digital Arquivística, precisamos distinguir aquilo que pertence ao objeto preservado daquilo que é produzido posteriormente sobre esse objeto.
Uma anotação de pesquisador, por exemplo, pode ser extremamente valiosa.
Mas ela possui:
um autor;
um contexto de produção;
uma finalidade;
uma temporalidade;
uma determinada relação com o objeto;
e eventualmente uma necessidade de preservação própria.
Portanto, a pergunta deixa de ser apenas:
“Como preservar o documento digital?”
Passamos também a perguntar:
“Como preservar as camadas de conhecimento produzidas sobre o documento digital?”
Essa é uma discussão que ainda precisa avançar muito na Arquivologia.
Porque, em ambientes digitais contemporâneos, o valor informacional não está necessariamente restrito ao objeto original.
Pode estar também nas relações construídas sobre ele.
E há uma consequência ainda mais interessante
Quando combinamos:
IIIF + Web Annotation + OCR + NER + IA + identificadores persistentes + APIs
começamos a construir uma infraestrutura na qual o documento digital pode participar de um ecossistema de pesquisa muito mais rico.
Uma anotação pode apontar para uma pessoa.
A pessoa pode estar relacionada a uma autoridade.
A autoridade pode estar vinculada a outros documentos.
Esses documentos podem possuir outros eventos, agentes e relações.
E aqui aparece uma ponte natural com modelos de descrição orientados a grafos e com iniciativas como Records in Contexts (RiC).
Portanto, talvez a questão mais interessante não seja simplesmente:
“O AtoM agora permite fazer anotações?”
A questão é outra:
“Que nova camada de representação do patrimônio documental estamos construindo quando permitimos que diferentes agentes anotem, relacionem, interpretem e produzam conhecimento estruturado sobre os objetos digitais?”
É nesse ponto que um simples recurso de interface deixa de ser apenas um recurso de interface.
Passa a ser uma questão de arquitetura da informação arquivística.
Uma última provocação
Se uma anotação pode ser produzida por um arquivista, pesquisador, usuário, inteligência artificial ou instituição...
quem é o responsável por sua autenticidade?
E mais:
a anotação deve ser preservada?
Se sim, com o documento?
Como evidência contextual?
Como objeto independente?
Ou como uma relação entre entidades?
Essas perguntas são, para nós, mais importantes do que simplesmente saber se o botão “Annotate” funciona.
É justamente nessa perspectiva que estamos acompanhando os AHG Plugins: não como uma coleção de funcionalidades para AtoM, mas como objetos de investigação sobre os caminhos tecnológicos que estão sendo construídos para a gestão, representação, preservação, acesso e produção de conhecimento sobre documentos digitais.
PDS & Ged/A – UFAL
Preservação Digital Sistêmica, Cadeia de Custódia Digital Arquivística e transformação tecnológica dos arquivos.
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