Documento de Pesquisa nº 01 Da Cadeia de Custódia Digital Arquivística à Arquitetônica da Arquivologia O que aprendemos depois de mais de trinta anos pesquisando documentos digitais?
PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa
Documento de Pesquisa nº 01
Da Cadeia de Custódia Digital Arquivística à Arquitetônica da Arquivologia
O que aprendemos depois de mais de trinta anos pesquisando documentos digitais?
10 de janeiro de 2026
Bem-vindos ao Diário de Pesquisa do PDS & Ged/A
A ciência costuma chegar até as pessoas quando já está pronta.
Lemos um artigo publicado, um capítulo de livro, uma tese defendida ou um relatório técnico concluído. Normalmente, vemos apenas o resultado final. Pouco sabemos sobre as perguntas que surgiram no caminho, as hipóteses que foram abandonadas, as dúvidas que permaneceram ou as ideias que amadureceram lentamente ao longo de muitos anos.
Sempre pensamos que isso poderia ser diferente.
Por essa razão decidimos criar este espaço.
O Diário de Pesquisa nasce como uma iniciativa de Ciência Aberta do Grupo de Pesquisa PDS & Ged/A, com um objetivo bastante simples: compartilhar publicamente o caminho percorrido pelas nossas pesquisas, antes mesmo de elas se transformarem em artigos científicos, livros ou capítulos.
Queremos abrir as portas do nosso laboratório de pesquisa.
Não para apresentar respostas prontas.
Mas para compartilhar perguntas.
Porque acreditamos que a ciência também pode ser construída coletivamente.
Uma pausa para olhar para trás
Entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026 realizamos um longo Seminário Permanente de Pesquisa.
A proposta inicial era relativamente simples.
Reunir professores, pesquisadores e estudantes para revisitar alguns temas que acompanham nosso Grupo há muitos anos:
documentos eletrônicos;
documentos arquivísticos digitais;
preservação digital;
Cadeia de Custódia Digital Arquivística;
Preservação Digital Sistêmica;
requisitos arquivísticos;
Modelo OAIS;
ecossistemas arquivísticos digitais.
Parecia mais uma atualização bibliográfica.
Mas não foi.
À medida que as reuniões avançavam, percebemos que algo diferente estava acontecendo.
Começamos a reler nossos próprios trabalhos.
Voltamos aos primeiros artigos publicados ainda na década de 1990.
Revisitamos projetos de pesquisa.
Retomamos apresentações feitas em congressos.
Lemos novamente autores que acompanham nossa trajetória há muitos anos.
E, pouco a pouco, surgiu uma pergunta que nunca havíamos formulado explicitamente.
Será que sempre estivemos pesquisando a mesma coisa?
Essa pergunta pode parecer estranha.
Afinal, ao longo desses anos estudamos temas muito diferentes.
Pesquisamos documentos eletrônicos.
Depois documentos digitais.
Falamos sobre autenticidade.
Metadados.
Preservação.
OAIS.
Archivematica.
AtoM.
Repositórios digitais confiáveis.
Mais recentemente, Inteligência Artificial.
À primeira vista, tudo isso parece representar assuntos distintos.
Mas será que realmente são?
Quanto mais revisitávamos nossa própria trajetória, mais percebíamos que as tecnologias mudavam muito rapidamente.
Os problemas arquivísticos, porém, permaneciam surpreendentemente parecidos.
Continuávamos perguntando:
Como garantir autenticidade?
Como preservar contexto?
Como assegurar continuidade?
Como manter a confiança nos documentos?
Como garantir que uma instituição continue conseguindo demonstrar suas ações ao longo do tempo?
De repente percebemos algo curioso.
Talvez nunca tivéssemos pesquisado tecnologias.
Talvez estivéssemos pesquisando exatamente os mesmos problemas arquivísticos por diferentes caminhos.
Essa percepção mudou completamente nossa forma de olhar para a Arquivologia Digital.
A transformação digital mudou a Arquivologia?
Essa talvez tenha sido a discussão mais interessante de todo o Seminário.
Durante muitos anos repetimos — e com razão — que a transformação digital modificou profundamente a Arquivologia.
Hoje continuamos concordando com isso.
Mas talvez seja necessário acrescentar outra ideia.
Começamos a suspeitar que a transformação digital não alterou os fundamentos da disciplina.
Ela tornou esses fundamentos muito mais visíveis.
Antes dos ambientes digitais, muitas relações arquivísticas permaneciam praticamente invisíveis.
A autenticidade era sustentada pelas rotinas institucionais.
A cadeia de custódia fazia parte do funcionamento cotidiano das organizações.
O contexto era preservado pelos próprios processos administrativos.
Os documentos circulavam em ambientes relativamente estáveis.
Os ambientes digitais mudaram completamente essa realidade.
Tudo aquilo que antes permanecia implícito precisou ser documentado.
Passamos a registrar metadados.
Descrever processos.
Formalizar requisitos.
Modelar fluxos.
Auditar sistemas.
Documentar responsabilidades.
Não porque os princípios arquivísticos mudaram.
Mas porque passaram a exigir novas formas de demonstração.
Essa talvez tenha sido uma das maiores lições do nosso Seminário.
A Cadeia de Custódia Digital Arquivística amadureceu
Outro resultado importante apareceu quando revisitamos a própria ideia de Cadeia de Custódia Digital Arquivística.
Quando esse conceito começou a ser desenvolvido, nossa principal preocupação era compreender como manter a continuidade documental em ambientes digitais.
Hoje percebemos que seu alcance é maior.
A Cadeia de Custódia Digital Arquivística não trata apenas da movimentação dos documentos entre sistemas.
Ela trata da continuidade institucional.
Ela registra responsabilidades.
Mantém relações de confiança.
Permite compreender quem fez o quê, quando, por qual motivo e sob quais condições.
Mais do que acompanhar documentos, acompanha a própria história das responsabilidades institucionais.
Essa percepção amplia significativamente o alcance do conceito.
A Preservação Digital Sistêmica também mudou
Algo semelhante aconteceu com a Preservação Digital Sistêmica.
Durante muito tempo descrevemos a PDS principalmente como uma estratégia de preservação.
Hoje acreditamos que ela representa algo maior.
Nenhum software preserva documentos sozinho.
Nenhum repositório garante autenticidade apenas por existir.
Nenhum algoritmo substitui políticas institucionais.
A preservação depende de pessoas.
Depende de normas.
Depende de governança.
Depende de processos.
Depende de responsabilidades claramente definidas.
Depende da integração entre todos esses elementos.
Foi exatamente nesse momento que começamos a compreender a Preservação Digital Sistêmica como uma arquitetura organizacional.
Mais do que preservar objetos digitais, ela organiza instituições para que seus documentos permaneçam confiáveis ao longo do tempo.
Talvez estejamos diante de uma nova etapa
Ao final do Seminário surgiu uma hipótese que continuará orientando nossas pesquisas.
Talvez conceitos como Cadeia de Custódia Digital Arquivística, Preservação Digital Sistêmica, ecossistemas arquivísticos digitais, requisitos arquivísticos e até mesmo nossas pesquisas sobre Inteligência Artificial façam parte de um mesmo programa de investigação.
Talvez todos eles procurem responder às mesmas perguntas fundamentais da Arquivologia.
Ainda não sabemos.
Mas acreditamos que vale a pena investigar.
É justamente por isso que nasce este Diário de Pesquisa.
Queremos compartilhar essas reflexões enquanto elas ainda estão amadurecendo.
Queremos ouvir críticas.
Receber sugestões.
Dialogar com colegas do Brasil e de outros países.
Acreditamos que a ciência cresce quando as perguntas circulam livremente.
Vamos conversar?
Gostaríamos muito de saber como você vê essa questão.
Na sua opinião,
a transformação digital modificou os fundamentos da Arquivologia ou apenas tornou mais visíveis problemas que sempre acompanharam nossa disciplina?
Deixe sua opinião nos comentários.
Será um prazer continuar essa conversa.
Próximo Documento de Pesquisa
25 de janeiro de 2026
Preservação Digital Sistêmica
Fundamentos, evolução e perspectivas para a preservação arquivística em ecossistemas digitais.
A pesquisa continua.
E esperamos que você continue caminhando conosco.
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