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Documento de Pesquisa nº 02 Preservação Digital Sistêmica Por que preservar documentos digitais nunca foi apenas um problema tecnológico?

 

PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa

Documento de Pesquisa nº 02

Preservação Digital Sistêmica

Por que preservar documentos digitais nunca foi apenas um problema tecnológico?

25 de janeiro de 2026


Bem-vindos novamente ao Diário de Pesquisa

Há quinze dias publicamos o primeiro texto desta série.

Naquela oportunidade compartilhamos uma pergunta que surgiu durante o Seminário Permanente de Pesquisa realizado pelo Grupo PDS & Ged/A entre 2025 e 2026.

A pergunta era relativamente simples.

Será que a transformação digital modificou os fundamentos da Arquivologia ou apenas tornou mais visíveis problemas que sempre acompanharam a disciplina?

A quantidade de mensagens que recebemos mostrou que essa dúvida não era apenas nossa.

Diversos colegas escreveram relatando experiências semelhantes.

Pesquisadores de diferentes áreas comentaram que também começaram suas investigações fascinados pelas novas tecnologias e, anos depois, perceberam que continuavam refletindo sobre problemas muito mais antigos.

Talvez isso faça parte da própria evolução da pesquisa científica.

Começamos observando as mudanças.

Depois passamos a procurar aquilo que permanece.

É justamente sobre isso que gostaríamos de conversar hoje.


Afinal, o que estamos preservando?

Essa pergunta parece muito simples.

Mas talvez seja uma das mais importantes de toda a Arquivologia Digital.

Quando falamos em preservação digital, normalmente pensamos em arquivos digitais.

Pensamos em formatos.

Em migração.

Em cópias de segurança.

Em armazenamento.

Em nuvem.

Em checksums.

Em repositórios digitais confiáveis.

Tudo isso é importante.

Muito importante.

Mas será que é isso que realmente estamos preservando?

Essa dúvida apareceu diversas vezes durante nosso Seminário.

E percebemos que, dependendo da resposta, toda a arquitetura da preservação muda.

Se acreditarmos que preservação consiste apenas em manter arquivos digitais acessíveis, a solução será predominantemente tecnológica.

Precisaremos de infraestrutura.

Servidores.

Backups.

Estratégias de migração.

Novos formatos.

Novos softwares.

Entretanto, se entendermos que preservar significa garantir que documentos continuem capazes de representar autenticamente as atividades das instituições ao longo do tempo, a situação muda completamente.

Nesse caso, a tecnologia continua sendo indispensável.

Mas deixa de ocupar o centro da discussão.


O documento nunca esteve sozinho

Uma das maiores mudanças provocadas pelos ambientes digitais foi justamente revelar algo que sempre existiu.

Nenhum documento arquivístico existe isoladamente.

Ele depende de contexto.

Depende de relações.

Depende de pessoas.

Depende de processos.

Depende de políticas.

Depende de responsabilidades.

Depende da instituição que o produziu.

Durante muitos anos essas relações permaneceram relativamente invisíveis.

Os próprios procedimentos administrativos garantiam boa parte dessa estabilidade.

Os documentos circulavam em estruturas organizacionais mais previsíveis.

A custódia era exercida de maneira contínua.

O contexto acompanhava naturalmente os documentos.

Com a transformação digital tudo isso precisou ser explicitado.

Passamos a documentar relações que antes eram apenas vividas.

Foi nesse momento que compreendemos que preservar documentos digitais significava preservar muito mais do que objetos digitais.

Significava preservar as relações que permitem compreender esses documentos.


Foi assim que começamos a pensar de forma sistêmica

Confesso que durante muito tempo eu próprio descrevi a Preservação Digital Sistêmica principalmente como um modelo de preservação.

Hoje não tenho mais tanta certeza de que essa definição seja suficiente.

Quanto mais estudávamos preservação, menos ela parecia uma técnica.

E mais parecia uma forma de organizar instituições.

Percebemos que nenhum software consegue preservar autenticidade sozinho.

Nenhum repositório produz contexto automaticamente.

Nenhuma tecnologia cria confiança por si mesma.

Tudo isso depende de decisões humanas.

De políticas institucionais.

De responsabilidades claramente estabelecidas.

De normas.

De gestão documental.

De infraestrutura.

De financiamento.

De planejamento.

De capacitação permanente.

Em outras palavras.

Depende de um sistema.

Talvez tenha sido exatamente nesse momento que começamos a compreender a Preservação Digital Sistêmica de maneira diferente.

Ela deixou de representar apenas um conjunto de procedimentos preservacionais.

Passou a representar uma arquitetura organizacional.


O sistema não é o software

Esse talvez tenha sido um dos equívocos mais comuns observados nos últimos anos.

Quando falamos em sistema, muitas pessoas imaginam imediatamente um sistema informatizado.

Mas não estamos falando disso.

Quando utilizamos a palavra "sistêmica", estamos nos referindo à forma como diferentes componentes institucionais se articulam continuamente para tornar possível a preservação de documentos arquivísticos.

O software é apenas um desses componentes.

Ao lado dele existem pessoas.

Políticas.

Normas.

Metadados.

Infraestrutura.

Modelos de governança.

Processos.

Auditorias.

Responsabilidades.

Planejamento.

Nada disso funciona isoladamente.

A preservação acontece exatamente na interação entre todos esses elementos.

Por isso preferimos falar em Preservação Digital Sistêmica.

Porque ela desloca nossa atenção do software para a instituição.

Da tecnologia para a governança.

Dos objetos digitais para as relações arquivísticas que lhes conferem significado.


O que mudou desde que propusemos esse conceito?

Talvez a maior mudança tenha ocorrido em nossa própria maneira de compreendê-lo.

Quando começamos a desenvolver a Preservação Digital Sistêmica, nosso foco estava voltado principalmente para a preservação.

Hoje percebemos que sua contribuição talvez seja ainda maior.

Ela oferece uma forma de pensar organizações.

Ajuda a compreender como instituições constroem ambientes capazes de manter seus documentos confiáveis durante décadas.

Talvez esse seja seu verdadeiro alcance.

E talvez seja justamente por isso que ela continua dialogando naturalmente com a Cadeia de Custódia Digital Arquivística, com o Modelo OAIS, com os requisitos arquivísticos e, mais recentemente, com os ecossistemas arquivísticos digitais.

Não porque esses conceitos sejam equivalentes.

Mas porque todos procuram responder, cada um à sua maneira, à mesma pergunta.

Como preservar a continuidade documental em ambientes permanentemente sujeitos à mudança?


Um convite à reflexão

Ao encerrarmos este segundo Documento de Pesquisa, gostaríamos de deixar uma provocação.

Sempre que falamos em preservação digital, perguntamos quais tecnologias serão necessárias para preservar documentos no futuro.

Talvez devêssemos formular também outra pergunta.

Que instituições precisamos construir para que essa preservação continue sendo possível daqui a cinquenta anos?

Talvez essa pergunta seja ainda mais importante do que discutir formatos, plataformas ou softwares.

Porque tecnologias inevitavelmente mudarão.

Instituições também.

Mas a necessidade de preservar documentos confiáveis continuará existindo.

E é exatamente essa continuidade que continua orientando nossas pesquisas.


E agora gostaríamos de ouvir você

Na sua experiência profissional ou acadêmica, qual tem sido o maior desafio da preservação digital?

A tecnologia?

A governança?

A cultura organizacional?

A falta de políticas?

Ou outro aspecto que talvez ainda estejamos deixando de lado?

Compartilhe sua experiência.

Será um prazer continuar aprendendo com esse diálogo.


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10 de fevereiro de 2026

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