Documento de Pesquisa nº 01 Da Cadeia de Custódia Digital Arquivística à Arquitetônica da Arquivologia Notas para uma reconstrução epistemológica da Arquivologia Digital
PDS & Ged/A – Documento de Pesquisa nº 01
Da Cadeia de Custódia Digital Arquivística à Arquitetônica da Arquivologia
Notas para uma reconstrução epistemológica da Arquivologia Digital
Daniel Flores
Grupo de Pesquisa CNPq PDS & Ged/A – Transformação Digital da Gestão Documental, Curadoria, Preservação, Acesso e Transparência Ativa em Cadeia de Custódia Digital Arquivística
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Junho de 2026
Resumo
O presente Documento de Pesquisa apresenta uma síntese das reflexões desenvolvidas no âmbito do Seminário Permanente de Pesquisa do Grupo PDS & Ged/A, realizado entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026. O texto registra o amadurecimento de investigações conduzidas ao longo de mais de três décadas sobre documentos eletrônicos, documentos digitais, preservação digital, Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA), Preservação Digital Sistêmica (PDS), requisitos arquivísticos, Modelo OAIS e ecossistemas arquivísticos digitais. Mais do que apresentar conclusões definitivas, este documento registra um momento de inflexão da pesquisa, no qual diferentes linhas de investigação passaram a convergir para uma hipótese de reconstrução epistemológica da tradição arquivística, aqui denominada, provisoriamente, leitura arquitetônica da Arquivologia.
Palavras-chave: Arquivologia; Cadeia de Custódia Digital Arquivística; Preservação Digital Sistêmica; Documento Digital; OAIS; Ecossistemas Arquivísticos Digitais; Epistemologia.
Introdução
Ao longo dos últimos trinta anos, a Arquivologia viveu uma transformação sem precedentes. A consolidação dos documentos eletrônicos, posteriormente dos documentos digitais, dos sistemas informatizados de gestão arquivística, dos repositórios digitais confiáveis e, mais recentemente, da inteligência artificial, alterou profundamente os ambientes de produção, manutenção, preservação e acesso aos documentos.
Grande parte da literatura concentrou-se, compreensivelmente, na compreensão dessas novas tecnologias. Projetos internacionais, normas técnicas, modelos de referência e requisitos arquivísticos foram desenvolvidos para responder aos desafios trazidos pela transformação digital.
O Grupo de Pesquisa PDS & Ged/A acompanhou esse movimento desde seus primeiros momentos. As pesquisas desenvolvidas sobre documentos eletrônicos, autenticidade, preservação digital, Cadeia de Custódia Digital Arquivística, Preservação Digital Sistêmica e ecossistemas arquivísticos digitais constituem parte desse percurso.
Entretanto, durante o Seminário Permanente de Pesquisa realizado entre 2025 e 2026, tornou-se progressivamente evidente que talvez estivéssemos formulando a pergunta errada.
Durante muitos anos perguntamos:
Como as novas tecnologias transformam a Arquivologia?
Ao final do Seminário, uma hipótese distinta começou a emergir:
E se as novas tecnologias não transformarem os fundamentos da Arquivologia, mas tornarem mais explícitos problemas arquivísticos que sempre existiram?
Essa mudança aparentemente simples alterou profundamente nossa forma de compreender a própria evolução da disciplina.
De onde partimos
Nossa trajetória científica iniciou-se ainda nos estudos sobre documentos eletrônicos, quando a principal preocupação consistia em compreender como documentos produzidos em ambientes computacionais poderiam conservar autenticidade, contexto e valor arquivístico.
Posteriormente, o desenvolvimento dos documentos digitais ampliou essa investigação, aproximando-a da Diplomática Contemporânea, das pesquisas do Projeto InterPARES e da crescente discussão internacional sobre autenticidade, confiabilidade e preservação.
Nos anos seguintes, a consolidação dos requisitos arquivísticos, do Modelo OAIS, do e-ARQ Brasil, do RDC-Arq e das arquiteturas preservacionais ampliou significativamente esse campo de investigação.
Nesse contexto surgiram duas contribuições que passaram a orientar boa parte das pesquisas do Grupo:
- a Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA);
- a Preservação Digital Sistêmica (PDS).
Ambas nasceram da necessidade de compreender não apenas como preservar documentos digitais, mas como preservar sua autenticidade, contexto, continuidade e capacidade de servir como evidência institucional.
O amadurecimento da Cadeia de Custódia Digital Arquivística
A CCDA surgiu como resposta à necessidade de reinterpretar o tradicional conceito arquivístico de custódia diante dos ambientes digitais.
Ao longo dos últimos anos, entretanto, compreendemos que seu alcance é mais amplo.
A Cadeia de Custódia Digital Arquivística não constitui apenas uma sequência de transferências de responsabilidade.
Ela representa uma arquitetura contínua de garantia da autenticidade, da integridade, da proveniência e da responsabilidade institucional.
Sob essa perspectiva, a CCDA deixou de ser compreendida apenas como procedimento operacional.
Passou a representar uma condição necessária para que documentos digitais possam continuar exercendo funções arquivísticas ao longo do tempo.
A evolução da Preservação Digital Sistêmica
Situação semelhante ocorreu com a Preservação Digital Sistêmica.
Inicialmente compreendida como estratégia preservacional, sua evolução revelou outra característica.
A PDS constitui uma arquitetura organizacional.
Ela integra pessoas, processos, políticas, sistemas, metadados, repositórios, normas e mecanismos de auditoria em um único ecossistema preservacional.
A preservação deixa de ser entendida como atividade isolada.
Passa a constituir um processo contínuo de governança documental.
Essa compreensão aproximou naturalmente a PDS dos debates contemporâneos sobre ecossistemas arquivísticos digitais.
Os principais achados do Seminário Permanente de Pesquisa
Durante o Seminário de Pesquisa realizado entre 2025 e 2026, algumas hipóteses começaram a apresentar elevado grau de convergência.
Entre elas destacam-se:
1. O problema central nunca foi tecnológico.
As tecnologias modificam os ambientes documentais.
Os problemas arquivísticos permanecem.
2. Os princípios arquivísticos continuam sendo intelectualmente relevantes.
A transformação digital não eliminou a proveniência, a autenticidade, a custódia, a organicidade ou a preservação.
Ao contrário.
Tornou sua explicitação ainda mais necessária.
3. Tecnologias funcionam como contextos de explicitação.
OAIS, Archivematica, AtoM, inteligência artificial ou blockchain não substituem princípios arquivísticos.
Constituem novos contextos nos quais esses princípios precisam ser reinterpretados.
4. Ecossistemas substituem arquiteturas lineares.
A produção, gestão, preservação e acesso aos documentos digitais deixaram de constituir etapas sucessivas.
Passam a integrar ecossistemas organizacionais permanentemente conectados.
5. A Arquivologia permanece porque seus problemas permanecem.
Talvez este tenha sido o principal resultado do Seminário.
Não importa qual tecnologia surja.
A disciplina continuará perguntando:
- Como garantir autenticidade?
- Como preservar contexto?
- Como assegurar continuidade?
- Como manter responsabilidade institucional?
Essas perguntas atravessam toda a tradição arquivística.
A emergência de uma hipótese
Ao longo das discussões do Seminário tornou-se progressivamente evidente que talvez fosse possível reconstruir a tradição arquivística sob outra perspectiva.
Essa hipótese recebeu provisoriamente o nome de leitura arquitetônica da Arquivologia.
Importa destacar que não se trata, neste momento, de uma nova teoria da Arquivologia.
Muito menos da substituição das contribuições clássicas da disciplina.
Trata-se apenas de uma hipótese interpretativa.
Seu objetivo consiste em investigar se diferentes contribuições desenvolvidas ao longo da história da Arquivologia podem ser compreendidas como respostas sucessivas a problemas permanentes da disciplina.
Caso essa hipótese se confirme, ela permitirá compreender com maior coerência as relações entre documentos eletrônicos, documentos digitais, autenticidade, preservação, requisitos arquivísticos, Modelo OAIS, Cadeia de Custódia Digital Arquivística, Preservação Digital Sistêmica e futuros ambientes documentais.
Próximos passos
Os resultados aqui apresentados representam apenas o estágio atual das investigações conduzidas pelo Grupo PDS & Ged/A.
Nos próximos anos, essas hipóteses serão aprofundadas por meio de:
- artigos científicos;
- teses e dissertações;
- cooperações internacionais;
- desenvolvimento de modelos conceituais;
- publicação dos Cadernos de Pesquisa PDS & Ged/A;
- e da futura coleção Arquitetônica da Arquivologia.
Considerações finais
Este Documento de Pesquisa não apresenta conclusões definitivas.
Constitui um registro do estado atual de uma investigação em andamento.
Seu principal objetivo consiste em compartilhar com a comunidade arquivística o amadurecimento de um percurso iniciado há mais de três décadas, agora reorganizado à luz das discussões realizadas no Seminário Permanente de Pesquisa de 2025–2026.
Mais do que propor respostas definitivas, pretendemos convidar pesquisadores, profissionais e estudantes a participar desse processo de reconstrução crítica da tradição arquivística diante dos desafios da transformação digital.
Acreditamos que o futuro da Arquivologia dependerá menos da capacidade de prever tecnologias e mais da capacidade de reinterpretar continuamente seus fundamentos diante de novos ambientes documentais. É nesse espírito que este Documento de Pesquisa inaugura uma nova etapa das investigações do Grupo PDS & Ged/A.
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