Documento de Pesquisa nº 15 Arquivos Cognitivos Uma proposta para compreender os arquivos como ecossistemas institucionais de aprendizagem, memória, confiança e governança
PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa
Documento de Pesquisa nº 15
Arquivos Cognitivos
Uma proposta para compreender os arquivos como ecossistemas institucionais de aprendizagem, memória, confiança e governança
10 de agosto de 2026
🌎 Ciência Aberta
Este Documento de Pesquisa representa um momento particular do programa científico desenvolvido pelo Grupo de Pesquisa CNPq PDS & Ged/A. Mais do que apresentar um novo conceito, procura integrar os resultados construídos ao longo dos quatorze documentos anteriores, registrando o amadurecimento de nossas hipóteses após o retorno das atividades acadêmicas no segundo semestre de 2026. Trata-se de um texto deliberadamente aberto, provisório e coletivo, elaborado como um diário de pesquisa, no qual registramos não apenas conclusões, mas também dúvidas, reformulações, consensos provisórios e novas agendas de investigação.
O retorno ao laboratório
A primeira reunião do Grupo PDS & Ged/A, realizada em 3 de agosto de 2026, marcou mais do que o início de um novo semestre letivo.
Representou o reencontro de pesquisadores que, durante o período de férias, continuaram pesquisando, lendo, participando de eventos, testando tecnologias, acompanhando a rápida evolução da Inteligência Artificial e refletindo sobre os rumos da Arquivologia.
Talvez essa tenha sido nossa primeira constatação.
Um grupo de pesquisa não interrompe suas atividades quando termina o semestre.
As reuniões cessam.
Mas as perguntas permanecem.
Cada pesquisador retorna trazendo novas referências, novas inquietações, novas experiências e, principalmente, novas perguntas.
Foi exatamente isso que ocorreu.
Ao iniciarmos a reunião percebemos que já não éramos exatamente o mesmo grupo que havia encerrado o semestre anterior.
As hipóteses haviam amadurecido.
Algumas haviam sido fortalecidas.
Outras precisaram ser reformuladas.
Algumas deixaram de fazer sentido.
E isso talvez represente o aspecto mais interessante da pesquisa científica.
A boa pesquisa não se caracteriza pela confirmação permanente de suas hipóteses.
Caracteriza-se pela disposição em modificá-las quando a realidade se revela mais complexa do que imaginávamos.
Uma retrospectiva necessária
Durante nossa conversa percebemos que os quatorze documentos anteriores não eram textos independentes.
Constituíam capítulos de uma mesma investigação.
Começamos discutindo a Preservação Digital Sistêmica, procurando compreender que preservar documentos digitais não significa apenas conservar objetos digitais, mas garantir autenticidade, contexto, proveniência e continuidade documental ao longo do tempo.
Posteriormente propusemos os Ecossistemas Arquivísticos Digitais, reconhecendo que documentos nunca existem isoladamente, mas integram redes compostas por pessoas, funções, processos, tecnologias, normas e instituições.
Aprofundamos a compreensão da Cadeia de Custódia Digital Arquivística, reinterpretamos o Modelo OAIS sob uma perspectiva arquivística, aproximamos a Arquivologia da Computational Archival Science, investigamos a Inteligência Artificial, propusemos a Governança Algorítmica Arquivística, discutimos a formação do arquivista do futuro, introduzimos os conceitos de Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes, Documentos Arquivísticos Inteligentes e Metadados Arquivísticos Inteligentes.
Ao olharmos retrospectivamente para esse percurso percebemos algo que não estava claro quando escrevemos os primeiros textos.
Todos eles conduziam à mesma pergunta.
Como uma instituição aprende preservando sua memória?
A principal mudança de perspectiva
Talvez o maior resultado de nossa primeira reunião do semestre tenha sido perceber que a Inteligência Artificial nos levou a formular uma pergunta equivocada.
Durante muito tempo perguntamos como os arquivos seriam transformados pela Inteligência Artificial.
Hoje começamos a suspeitar que a pergunta mais relevante seja outra.
Como a Arquivologia pode orientar o desenvolvimento de ecossistemas institucionais inteligentes sem abrir mão de seus princípios fundamentais?
Essa mudança parece sutil.
Entretanto, altera completamente o centro da discussão.
A Inteligência Artificial deixa de ocupar o papel principal.
O protagonismo retorna à Arquivologia.
Os algoritmos passam a ser compreendidos como componentes de uma arquitetura institucional muito mais ampla, cuja finalidade continua sendo preservar autenticidade, responsabilidade, contexto e confiança.
Um intenso debate do grupo
Grande parte da reunião concentrou-se em discutir uma afirmação que surgiu espontaneamente durante os debates.
"Talvez os arquivos nunca tenham sido apenas lugares de preservação. Talvez sempre tenham sido espaços de aprendizagem institucional."
A frase provocou quase uma hora de discussão.
Inicialmente alguns pesquisadores interpretaram a ideia como excessivamente ousada.
Outros argumentaram que organizações sempre aprenderam a partir de seus próprios documentos.
Relatórios.
Processos.
Atas.
Pareceres.
Correspondências.
Contratos.
Todos esses documentos registram experiências acumuladas pela instituição.
Quando voltam a ser consultados para fundamentar novas decisões, produzem um processo contínuo de aprendizagem organizacional.
A novidade da transformação digital talvez não esteja na aprendizagem.
Talvez esteja na velocidade com que essa aprendizagem passa a ocorrer.
Arquivos Cognitivos
Ao final da discussão começamos a formular uma hipótese provisória.
Propomos compreender os Arquivos Cognitivos como ecossistemas institucionais capazes de organizar, preservar, interpretar e reutilizar continuamente a memória organizacional por meio da interação entre documentos arquivísticos, metadados, políticas institucionais, agentes inteligentes, processos administrativos e pessoas.
A cognição não pertence ao arquivo.
Pertence à instituição.
Os documentos preservam evidências.
Os metadados preservam relações.
Os agentes inteligentes ampliam capacidades operacionais.
Os arquivistas preservam autenticidade, contexto, proveniência e responsabilidade.
A aprendizagem emerge da interação entre todos esses elementos.
Essa distinção tornou-se um dos consensos mais importantes da reunião.
A inteligência continua sendo humana
Outro ponto amplamente debatido dizia respeito ao risco de atribuir características humanas aos sistemas computacionais.
Decidimos evitar essa interpretação.
Arquivos não pensam.
Documentos não pensam.
Metadados não pensam.
Algoritmos não possuem responsabilidade institucional.
A inteligência institucional continua sendo produzida por pessoas.
O que muda é que essas pessoas passam a dispor de ecossistemas documentais muito mais ricos, capazes de ampliar significativamente sua capacidade de compreender o passado, interpretar o presente e planejar o futuro.
PREMIS deixa de ser apenas preservação
Uma das discussões mais produtivas do encontro concentrou-se na evolução do PREMIS.
Tradicionalmente compreendido como um padrão para registrar eventos de preservação, começamos a discutir a possibilidade de utilizá-lo também como infraestrutura permanente de governança documental.
Imaginemos, por exemplo, que um documento preservado em um RDC-Arq alcance automaticamente o término de seu prazo de restrição de acesso.
Um evento PREMIS poderá registrar essa condição.
Um agente inteligente poderá consultar as políticas arquivísticas da instituição.
Outro agente poderá verificar a classificação de sigilo, a existência de dados pessoais sensíveis protegidos pela LGPD e a necessidade de anonimização parcial.
Concluídas essas verificações, o próprio ecossistema poderá encaminhar automaticamente a atualização da descrição arquivística no AtoM, disponibilizar o documento em um portal de transparência ativa e registrar todas essas ações como novos eventos PREMIS.
Nenhuma decisão ocorrerá sem documentação.
Nenhuma ação romperá a Cadeia de Custódia Digital Arquivística.
Soberania tecnológica
Outro aspecto que ganhou destaque diz respeito à soberania tecnológica.
Reafirmamos nossa compreensão de que universidades públicas, arquivos nacionais e instituições de memória devem fortalecer infraestruturas digitais abertas, sustentadas por software livre e padrões internacionais.
Nesse contexto, Archivematica, AtoM, PREMIS, RiC-O, protocolos interoperáveis, modelos locais executados por ferramentas como Ollama, arquiteturas RAG e grafos de conhecimento passam a integrar uma mesma infraestrutura documental.
Entretanto, reforçamos uma posição que consideramos fundamental.
A arquitetura tecnológica deve permanecer subordinada à arquitetura arquivística.
Tecnologias evoluem.
Princípios arquivísticos permanecem.
Uma hipótese reformulada
Ao encerrarmos a reunião percebemos que uma de nossas hipóteses iniciais precisava ser reformulada.
Durante vários meses afirmamos que a Inteligência Artificial transformaria os arquivos.
Hoje começamos a acreditar que ela transforma principalmente a maneira como compreendemos o papel dos arquivos dentro das instituições.
Os arquivos deixam de ser percebidos apenas como espaços de guarda documental.
Passam a ser reconhecidos como infraestruturas permanentes de aprendizagem, transparência, governança, memória institucional e confiança pública.
Nossa agenda para o segundo semestre
Encerramos a reunião estabelecendo algumas prioridades para os próximos meses.
Pretendemos aprofundar pesquisas relacionadas a:
PREMIS Actionable;
integração entre Archivematica, AtoM e agentes inteligentes;
utilização de MCP para comunicação segura entre sistemas;
grafos de conhecimento baseados em RiC-O;
Retrieval-Augmented Generation arquivístico;
utilização de modelos locais de Inteligência Artificial em instituições públicas;
indicadores de maturidade para Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes;
métricas de confiança documental;
políticas arquivísticas para agentes inteligentes;
formação do arquivista para ambientes cognitivos.
Mais do que uma lista de projetos, essa agenda representa um compromisso.
Continuaremos investigando como a Arquivologia pode contribuir para que a transformação digital fortaleça — e não fragilize — a autenticidade, a memória institucional e a democracia.
Uma reflexão final
Ao encerrarmos nosso primeiro encontro do semestre percebemos que talvez o maior resultado da reunião não tenha sido encontrar respostas.
Foi descobrir perguntas melhores.
Perguntas capazes de ampliar nosso programa científico e aproximar ainda mais a Arquivologia dos grandes debates contemporâneos sobre Inteligência Artificial, Ciência de Dados, Governança Digital e Ciência Aberta.
Se nossas hipóteses estiverem corretas, a Arquivologia continuará desempenhando um papel essencial na sociedade digital.
Não porque desenvolverá os algoritmos mais sofisticados.
Mas porque continuará sendo a disciplina responsável por preservar aquilo que nenhuma tecnologia pode produzir sozinha:
autenticidade, contexto, evidência, responsabilidade, memória institucional e confiança pública.
Talvez seja exatamente essa a maior contribuição dos Arquivos Cognitivos.
Não ensinar máquinas a pensar.
Mas permitir que as instituições continuem aprendendo sem esquecer quem são, como chegaram até aqui e por que a memória continua sendo um patrimônio coletivo indispensável para a democracia e para o futuro.
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