OCMF: uma iniciativa muito promissora para migração de dados legados para o AtoM
Uma iniciativa que merece a atenção da comunidade arquivística e tecnológica acaba de surgir no ecossistema do AtoM: o Open Collections Migration Framework (OCMF), desenvolvido por Matthew Bruton.
A proposta é simples de explicar, mas tecnicamente bastante interessante: facilitar a migração de dados de sistemas legados de gestão de coleções e acervos para o AtoM, especialmente quando esses sistemas conseguem produzir arquivos de exportação, mas não oferecem uma migração estruturada para uma plataforma arquivística aberta.
O OCMF atualmente trabalha com exportações de sistemas como PastPerfect e Axiell/Adlib, transformando esses dados em uma estrutura compatível com a importação de descrições ISAD(G) no AtoM. O projeto não acessa diretamente as bases de dados dos sistemas legados: sua fronteira operacional é justamente o dado exportado.
E é justamente aí que está uma das suas contribuições mais interessantes.
Não é apenas "converter um CSV"
Em uma migração real, o problema raramente é simplesmente mudar uma coluna de lugar.
É necessário compreender:
• quais campos existem no sistema de origem;
• quais campos possuem correspondência no AtoM;
• quais dados não possuem correspondência;
• quais registros estão duplicados;
• quais identificadores estão ausentes;
• quais relações hierárquicas precisam ser reconstruídas;
• quais registros ficaram órfãos;
• quais transformações alteraram o significado original dos dados;
• e, sobretudo, o que foi perdido, inferido ou transformado durante a migração.
O OCMF procura enfrentar justamente essa camada intermediária.
Segundo a documentação do projeto, os dados são convertidos para um grafo interno tipado, no qual são representadas entidades, identificadores e relações como child_of e created_by. A partir daí, o sistema reconstrói hierarquias, realiza verificações preliminares e somente depois produz o CSV destinado ao AtoM.
Essa opção arquitetural é particularmente interessante para a Arquivologia.
A hierarquia arquivística não é simplesmente uma sequência de linhas em uma planilha. Ela expressa relações estruturais entre unidades de descrição. Por isso, tratar a migração como uma transformação de uma estrutura relacional/legada para uma estrutura explícita de relações pode ser muito mais seguro do que utilizar scripts lineares que simplesmente copiam valores de uma coluna para outra.
Um aspecto que merece muita atenção: a auditoria
Talvez um dos componentes mais interessantes do OCMF seja justamente o chamado audit pack.
O sistema pode produzir um registro das:
• fontes não mapeadas;
• informações mapeadas que não foram encontradas na exportação;
• estruturas hierárquicas sintetizadas;
• transformações interpretativas;
• e instruções para validação e carga no AtoM.
O projeto chama esse registro de DATA_LOSS_REGISTER.md.
Isso é extremamente relevante.
Em uma migração arquivística, não basta produzir um novo banco de dados aparentemente funcional.
É necessário saber o que aconteceu com o dado durante a migração.
Se um campo não encontrou correspondência, isso precisa ser conhecido.
Se uma hierarquia precisou ser reconstruída, isso precisa ser conhecido.
Se uma data foi interpretada ou normalizada, isso precisa ser conhecido.
Se determinado conteúdo simplesmente não pôde ser migrado, isso precisa ser conhecido.
Essa perspectiva aproxima a migração de uma prática de auditoria, rastreabilidade e controle arquivístico da transformação, e não apenas de uma operação informática de importação.
E como isso se relaciona ao AtoM?
O AtoM possui mecanismos próprios de importação CSV e disponibiliza templates específicos para descrições arquivísticas segundo ISAD(G), além de mecanismos de validação e importação pela linha de comando. A documentação oficial deixa claro que os cabeçalhos dos CSV precisam corresponder à estrutura esperada pelo AtoM e recomenda testar e validar os dados antes da importação.
O OCMF parece ocupar justamente o espaço anterior ao AtoM:
Sistema legado → Exportação → OCMF → auditoria/validação → CSV ISAD(G) → AtoM
E isso é importante.
O OCMF não substitui a validação do AtoM nem a revisão arquivística da migração. O próprio autor faz essa ressalva.
Na realidade, sua proposta parece ser outra: criar uma camada intermediária reutilizável, testável e auditável para aquilo que muitas vezes é resolvido por scripts específicos, desenvolvidos uma única vez para cada projeto de migração.
Há, entretanto, uma questão arquivística fundamental
É preciso evitar a ideia de que uma migração tecnicamente bem-sucedida seja automaticamente uma migração arquivisticamente correta.
Converter dados não significa necessariamente preservar:
proveniência, contexto, autenticidade, relações, estrutura e significado arquivístico.
Uma ferramenta como o OCMF pode ajudar muito na transformação controlada dos dados, mas a definição do que deve ser preservado, como deve ser descrito e quais relações devem permanecer não pode ser delegada exclusivamente ao software.
Por isso, eu vejo o OCMF como uma ferramenta de apoio à migração arquivística, e não como substituto da análise arquivística do acervo e da documentação do processo.
Um projeto ainda inicial — e justamente por isso importante acompanhar
Há também que se ter cautela.
O repositório é bastante recente, possui atualmente poucos commits, ainda não apresenta releases publicados e tem uma comunidade muito pequena em torno do projeto. Portanto, não estamos diante de uma solução madura e consolidada que possa ser recomendada indiscriminadamente para migrações de produção.
Mas isso não diminui sua importância.
Ao contrário.
Projetos assim precisam ser testados, criticados e aperfeiçoados pela comunidade.
Seria especialmente interessante verificar sua aplicação com diferentes versões do AtoM, diferentes estruturas de exportação, grandes volumes de dados, múltiplos idiomas, autoridades, eventos, identificadores persistentes, objetos digitais e, naturalmente, diferentes estratégias de descrição arquivística.
Também será importante observar como o framework evoluirá para além dos atuais cenários de PastPerfect e Axiell/Adlib.
Por que considero esta iniciativa relevante?
Porque ela toca em uma questão que frequentemente permanece invisível nos projetos de implantação do AtoM:
A migração não começa no botão "Importar CSV".
Antes da importação existe todo um processo de extração, mapeamento, interpretação, transformação, reconstrução, validação, auditoria e documentação.
E quanto mais complexos forem os sistemas legados, maior será a importância dessa camada.
O OCMF propõe justamente tornar essa camada mais explícita.
É uma iniciativa que merece ser acompanhada pela comunidade AtoM, pelos arquivistas, pelos profissionais de TI e, especialmente, por aqueles que trabalham com migração de sistemas legados, preservação digital, interoperabilidade e transformação de dados arquivísticos.
Ainda é cedo para afirmar que temos uma solução definitiva.
Mas já há elementos suficientes para dizer que temos uma ideia tecnicamente interessante e conceitualmente muito oportuna.
E talvez o mais importante: trata-se de uma iniciativa open source, publicada sob licença MIT, aberta à inspeção, aos testes, às críticas e à colaboração da comunidade.
Vale acompanhar. Vale testar. E vale contribuir.
🔗 Open Collections Migration Framework (OCMF):
Repositório oficial no GitHub
Prof. Daniel Flores
PPGCI – Universidade Federal de Alagoas (UFAL)
Comentários
Postar um comentário
Comente aqui, por favor .....