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Documento de Pesquisa nº 09 Autenticidade na Era da Inteligência Artificial Como preservar confiança, evidência e responsabilidade quando agentes inteligentes passam a participar dos processos arquivísticos

 

PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa

Documento de Pesquisa nº 09

Autenticidade na Era da Inteligência Artificial

Como preservar confiança, evidência e responsabilidade quando agentes inteligentes passam a participar dos processos arquivísticos

10 de maio de 2026


🌎 Ciência Aberta

Os Diários de Pesquisa do Grupo PDS & Ged/A constituem um espaço permanente de Ciência Aberta dedicado ao compartilhamento de hipóteses, resultados parciais, agendas de pesquisa e reflexões sobre Arquivologia Digital. Nosso objetivo continua sendo documentar publicamente a evolução de nosso programa científico, permitindo que pesquisadores, profissionais e instituições acompanhem, discutam e contribuam para a construção coletiva do conhecimento.


📚 O que aprendemos até aqui

Ao longo dos últimos meses nosso programa de pesquisa percorreu um caminho relativamente consistente.

Aprendemos que a preservação digital precisa ser sistêmica.

Compreendemos os documentos como parte de Ecossistemas Arquivísticos Digitais.

Revisitamos o Modelo OAIS sob uma perspectiva arquivística.

Ampliamos a compreensão da Cadeia de Custódia Digital Arquivística.

Reconhecemos uma intersecção epistemológica entre a tradição arquivística europeia, as iSchools e a Computational Archival Science.

Percebemos que métodos computacionais produzem novas perguntas arquivísticas.

E começamos a compreender que agentes inteligentes passam a integrar os próprios ecossistemas documentais.

Talvez todas essas descobertas estivessem nos conduzindo para uma questão ainda mais fundamental.

Como preservar confiança?


Talvez a Arquivologia sempre tenha preservado confiança

Durante décadas costumamos afirmar que a Arquivologia preserva documentos.

A afirmação continua correta.

Mas talvez esteja incompleta.

Instituições recorrem aos documentos porque confiam neles.

A sociedade utiliza documentos porque acredita que representam evidências.

Os tribunais aceitam documentos porque reconhecem sua autenticidade.

As organizações preservam documentos porque necessitam manter responsabilidades ao longo do tempo.

Em todos esses exemplos existe algo anterior ao próprio documento.

Existe confiança.

Talvez os documentos nunca tenham sido um fim em si mesmos.

Talvez sempre tenham sido instrumentos para preservar relações de confiança entre pessoas, instituições e sociedade.


📓 Caderno de Laboratório

Maio de 2026

Durante uma das reuniões alguém fez uma observação que permaneceu presente durante todo o restante da discussão.

"Talvez estejamos perguntando como preservar documentos quando deveríamos estar perguntando como preservar confiança."

Nenhum de nós respondeu imediatamente.

Porque todos percebemos que aquela frase alterava profundamente a forma como vínhamos compreendendo nossa própria pesquisa.


💡 Um dos nossos achados

Ao longo das últimas discussões percebemos que autenticidade deixou de depender exclusivamente das características intrínsecas dos documentos.

Ela passa a depender também da transparência, da rastreabilidade e da inteligibilidade dos processos — humanos e algorítmicos — que produzem, transformam, descrevem, organizam, preservam e disponibilizam esses documentos.

Talvez a autenticidade do futuro seja, cada vez mais, uma propriedade do ecossistema documental como um todo.


A Inteligência Artificial não produz apenas documentos

Ela produz decisões.

Durante muito tempo associamos Inteligência Artificial à automação documental.

Hoje essa percepção parece insuficiente.

Agentes inteligentes classificam documentos.

Geram descrições.

Relacionam informações.

Produzem recomendações.

Selecionam resultados.

Priorizam conteúdos.

Influenciam decisões administrativas.

Em outras palavras.

Eles começam a participar dos próprios processos arquivísticos.

Essa mudança modifica profundamente o objeto de nossa reflexão.

Já não basta preservar o documento.

Precisamos compreender e documentar os processos que atuaram sobre ele.


⚖️ Dilema Arquivístico

Imagine dois documentos absolutamente idênticos.

Um foi descrito por um arquivista.

O outro foi descrito por um agente inteligente.

Ambos apresentam exatamente os mesmos metadados.

A mesma classificação.

A mesma descrição.

A mesma estrutura.

Ainda assim.

Se não conseguirmos compreender como o agente inteligente produziu aquela descrição, podemos afirmar que ambos inspiram o mesmo grau de confiança arquivística?

Ainda não sabemos responder.

Mas essa pergunta continuará acompanhando nossas pesquisas.


Transparência talvez também seja preservação

Ao longo das últimas décadas concentramos nossos esforços na preservação dos documentos.

Hoje começamos a perceber outra necessidade.

Também será necessário preservar a inteligibilidade dos processos.

Quando um algoritmo reorganiza metadados.

Quando um modelo recomenda descrições.

Quando um agente inteligente participa da avaliação documental.

Esses acontecimentos também passam a integrar a história do documento.

Talvez preservar documentos não seja suficiente.

Talvez também precisemos preservar os caminhos percorridos até que cada documento assumisse sua forma atual.


🔬 Um resultado inesperado

Ao observarmos diferentes plataformas baseadas em Inteligência Artificial percebemos um padrão curioso.

Quase todas documentam os resultados produzidos.

Pouquíssimas documentam adequadamente como esses resultados foram construídos.

Talvez um dos maiores desafios arquivísticos da próxima década não seja preservar documentos produzidos por Inteligência Artificial.

Seja preservar evidências sobre os próprios processos algorítmicos.


A autenticidade talvez esteja mudando de significado

Durante muito tempo compreendemos autenticidade como uma propriedade documental.

Hoje começamos a suspeitar que ela também possa ser compreendida como uma propriedade dos processos.

Documentos permanecem autênticos.

Mas também precisamos confiar nos processos que os produziram.

Nos algoritmos que participaram de sua descrição.

Nos agentes inteligentes que recomendaram classificações.

Nos modelos que organizaram informações.

Talvez autenticidade documental e autenticidade processual tornem-se dimensões inseparáveis.

Ainda precisamos investigar cuidadosamente essa hipótese.


🤔 Uma hipótese parcialmente reformulada

No início de nossas pesquisas imaginávamos que bastaria preservar documentos produzidos ou tratados por Inteligência Artificial.

Hoje acreditamos que essa hipótese era insuficiente.

Também será necessário preservar evidências dos próprios processos computacionais que participaram das decisões documentais.

Essa mudança amplia significativamente o papel da Arquivologia.


Estamos caminhando para uma Arquivologia da Confiança?

Essa pergunta apareceu diversas vezes durante nosso Seminário.

Talvez a maior contribuição da Arquivologia na próxima década não seja apenas preservar documentos digitais.

Talvez seja preservar confiança.

Confiança institucional.

Confiança documental.

Confiança algorítmica.

Confiança pública.

Ainda não sabemos se essa hipótese se confirmará.

Mas ela passou a orientar boa parte de nossas discussões mais recentes.


🌱 Uma hipótese em construção

Talvez a autenticidade do futuro dependa simultaneamente da preservação documental e da preservação da inteligibilidade dos processos computacionais que atuam sobre os documentos.

Continuaremos investigando essa possibilidade.


🧭 Agenda de Pesquisa

Ao final de nossa reunião registramos algumas perguntas que orientarão os próximos meses de investigação.

  • Como documentar decisões produzidas por agentes inteligentes?

  • Como preservar evidências de processos algorítmicos?

  • Como representar transparência computacional em ambientes arquivísticos?

  • Como integrar explicabilidade, governança algorítmica e Cadeia de Custódia Digital Arquivística?

  • Estamos caminhando para uma Arquivologia da Confiança?

Essas perguntas não encerram nosso programa científico.

Representam apenas o início de uma nova etapa.


Seguimos aprendendo

Talvez a maior contribuição deste Documento de Pesquisa não esteja nas respostas que apresenta.

Mas na mudança da própria pergunta.

Durante décadas perguntamos como preservar documentos.

Hoje começamos a perguntar como preservar confiança.

Se essa mudança realmente representar uma evolução da Arquivologia, talvez estejamos assistindo ao surgimento de uma das agendas científicas mais importantes para a disciplina nas próximas décadas.

Ainda não sabemos.

Mas acreditamos que vale a pena construir essa resposta coletivamente.


💬 Vamos continuar esta conversa?

Na sua experiência profissional,

você acredita que a autenticidade continuará sendo suficiente para sustentar a confiança institucional em ambientes fortemente mediados por Inteligência Artificial?

Ou a Arquivologia precisará desenvolver novos conceitos para compreender transparência, explicabilidade, responsabilidade e confiança algorítmica?

Gostaríamos muito de conhecer sua perspectiva.

Ela poderá contribuir para os próximos Diários de Pesquisa.


📅 Próximo Documento de Pesquisa

Governança Algorítmica e Arquivologia

Como princípios arquivísticos podem contribuir para a transparência, a explicabilidade e a responsabilidade em sistemas baseados em Inteligência Artificial.

25 de maio de 2026

A pesquisa continua.

E esperamos continuar construindo esse conhecimento com você.

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