Documento de Pesquisa nº 10 Governança Algorítmica Arquivística Uma proposta para a gestão responsável de documentos, dados, agentes inteligentes e memória institucional
PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa
Documento de Pesquisa nº 10
Governança Algorítmica Arquivística
Uma proposta para a gestão responsável de documentos, dados, agentes inteligentes e memória institucional
25 de maio de 2026
🌎 Ciência Aberta
Os Diários de Pesquisa do Grupo PDS & Ged/A constituem um espaço permanente de Ciência Aberta dedicado ao compartilhamento de hipóteses, resultados parciais, proposições conceituais e agendas de pesquisa em Arquivologia Digital. Mais do que divulgar resultados concluídos, buscamos tornar público o próprio processo de construção do conhecimento, convidando pesquisadores, profissionais, estudantes e instituições a participar do amadurecimento coletivo das ideias que vêm sendo desenvolvidas em nosso programa científico.
📚 O que aprendemos até aqui
Quando iniciamos esta série de Diários de Pesquisa, nossa principal preocupação era compreender como preservar documentos arquivísticos digitais em ambientes tecnológicos cada vez mais complexos.
A partir dessa questão inicial, nosso programa de pesquisa evoluiu progressivamente.
Compreendemos que a preservação digital não poderia ser tratada como um conjunto isolado de técnicas, mas como uma arquitetura sistêmica, institucional e organizacional.
Propusemos a noção de Preservação Digital Sistêmica.
Posteriormente, percebemos que documentos não existem isoladamente.
Eles coexistem em ambientes compostos por pessoas, sistemas, instituições, normas, políticas, tecnologias, infraestruturas e relações sociais.
Foi nesse contexto que propusemos o conceito de Ecossistemas Arquivísticos Digitais.
Em seguida revisitamos o Modelo OAIS, defendendo que sua aplicação em arquivos depende necessariamente dos fundamentos da Arquivologia.
Reinterpretamos a Cadeia de Custódia Digital Arquivística como um processo contínuo de preservação da autenticidade e da responsabilidade institucional.
Discutimos a identidade epistemológica de nosso Grupo de Pesquisa, identificando uma intersecção entre a tradição arquivística europeia, a Ciência da Informação, as iSchools e a Computational Archival Science.
Mais recentemente passamos a investigar a Inteligência Artificial não apenas como tecnologia, mas como novo ator participante desses ecossistemas.
Por fim compreendemos que talvez nossa maior pergunta nunca tenha sido apenas como preservar documentos.
Talvez sempre estivéssemos tentando compreender como preservar confiança.
Hoje damos mais um passo.
Passamos a perguntar:
Quem governa os agentes inteligentes quando eles passam a produzir, organizar, preservar e disponibilizar documentos arquivísticos?
🔄 Como nossa pergunta evoluiu
Ao longo destes dez primeiros documentos percebemos que nossa pergunta científica amadureceu continuamente.
Primeiro perguntávamos:
Como preservar documentos digitais?
Depois passamos a perguntar:
Como preservar autenticidade e continuidade documental?
Mais tarde:
Como compreender Ecossistemas Arquivísticos Digitais?
Depois:
Como agentes inteligentes passam a participar desses ecossistemas?
Hoje nossa pergunta é diferente.
Como governar algoritmos, agentes inteligentes, modelos de IA e fluxos documentais automatizados sem comprometer autenticidade, contexto, proveniência, responsabilidade institucional e confiança pública?
Talvez essa mudança represente uma das transformações mais importantes de nossa agenda científica.
A Arquivologia talvez esteja diante de uma nova responsabilidade
Durante mais de um século a Arquivologia concentrou seus esforços na produção, gestão, avaliação, preservação e acesso aos documentos arquivísticos.
Essas responsabilidades continuam absolutamente atuais.
Entretanto, a transformação digital parece estar ampliando significativamente o escopo de atuação da disciplina.
Hoje os documentos já não circulam apenas entre pessoas.
Eles passam a circular também entre sistemas inteligentes.
Entre agentes autônomos.
Entre modelos de Inteligência Artificial.
Entre arquiteturas distribuídas.
Entre mecanismos automáticos de tomada de decisão.
Consequentemente, a Arquivologia deixa de lidar exclusivamente com documentos.
Passa também a lidar com algoritmos que produzem documentos.
Modelos que descrevem documentos.
Agentes que recomendam acesso.
Sistemas que classificam informações.
Infraestruturas capazes de tomar decisões documentais previamente configuradas.
Talvez estejamos diante de uma das maiores transformações da história recente da Arquivologia.
📓 Caderno de Laboratório
Maio de 2026
Durante nosso Seminário Permanente alguém fez uma pergunta aparentemente simples.
"Os algoritmos precisam apenas de programação ou também precisam de governança?"
Durante alguns minutos ninguém respondeu.
Porque percebemos que programação explica como um sistema funciona.
Mas governança explica quem responde por esse funcionamento.
Naquele momento compreendemos que estávamos deixando de discutir tecnologia.
Passávamos a discutir responsabilidade institucional.
🏛️ Proposição Conceitual
Governança Algorítmica Arquivística
Começamos a trabalhar com a hipótese de que a Governança Algorítmica Arquivística possa ser compreendida como:
o conjunto integrado de princípios arquivísticos, políticas institucionais, mecanismos de controle, evidências documentais, responsabilidades profissionais e processos de auditoria destinados a assegurar que agentes inteligentes atuem em conformidade com autenticidade, proveniência, contexto, cadeia de custódia, transparência, responsabilidade institucional, proteção de dados e preservação de longo prazo.
Essa definição ainda é provisória.
Não representa uma conclusão.
Representa uma proposta conceitual aberta ao debate científico.
Documentos, dados e Inteligência Artificial tornaram-se inseparáveis
Durante décadas a Arquivologia concentrou sua atenção principalmente nos documentos.
Hoje começamos a perceber que documentos, dados, metadados e modelos computacionais passaram a constituir um único ecossistema informacional.
Um documento digital produz dados.
Esses dados alimentam sistemas.
Esses sistemas treinam modelos.
Esses modelos produzem novos metadados.
Esses metadados reorganizam documentos.
Esses documentos alimentam novamente novos modelos.
Talvez documentos e dados já não possam mais ser compreendidos como objetos independentes.
A Arquivologia precisará aprender a governar ambos simultaneamente.
💡 Um dos nossos achados
A transformação digital não amplia apenas a quantidade de documentos produzidos.
Ela amplia exponencialmente a quantidade de decisões automatizadas que atuam sobre esses documentos.
Isso desloca parte da responsabilidade arquivística para a governança dos próprios algoritmos.
Dados pessoais e dados sensíveis
A entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) representou uma mudança muito mais profunda do que normalmente reconhecemos.
Ela alterou a própria natureza da gestão documental.
Passamos a administrar documentos contendo:
- dados pessoais;
- dados pessoais sensíveis;
- dados biométricos;
- dados genéticos;
- dados de saúde;
- dados financeiros;
- dados pseudonimizados;
- dados anonimizados;
- metadados derivados;
- inferências produzidas por Inteligência Artificial.
Talvez a Arquivologia precise ampliar sua compreensão tradicional do ciclo de vida documental para incorporar também o ciclo de vida dos dados que alimentam sistemas inteligentes.
Documentos classificados e graus de sigilo
Outro aspecto que começou a chamar nossa atenção diz respeito aos documentos classificados.
Até hoje a desclassificação documental dependia predominantemente da intervenção humana.
No entanto, Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes poderão executar automaticamente políticas previamente configuradas.
Imagine um documento protegido por sigilo de vinte e cinco anos.
Ao atingir a data prevista.
Um agente inteligente poderá:
- verificar o prazo legal;
- confirmar inexistência de nova classificação;
- registrar um evento PREMIS;
- alterar automaticamente permissões de acesso;
- publicar o objeto digital no AtoM;
- gerar notificações;
- registrar auditorias;
- produzir evidências do processo.
A tecnologia torna esse cenário perfeitamente possível.
A pergunta arquivística passa a ser outra.
Quem responde por essa decisão?
⚖️ Dilema Arquivístico
Um agente inteligente pode liberar automaticamente um documento após o vencimento do prazo legal de sigilo.
Mas quem assume a responsabilidade caso a classificação original estivesse incorreta?
O algoritmo?
O arquivista?
A autoridade classificadora?
A instituição?
Talvez essa seja uma das questões mais importantes da próxima década.
PREMIS deixa de ser apenas documentação da preservação?
Esta foi uma das hipóteses mais estimulantes surgidas durante nossas reuniões.
Tradicionalmente compreendemos eventos PREMIS como registros de ações de preservação.
Entretanto.
Em ambientes inteligentes esses eventos poderão tornar-se também gatilhos operacionais.
Um evento PREMIS poderá iniciar automaticamente:
- publicação em repositórios;
- abertura de acesso;
- atualização de permissões;
- notificações institucionais;
- novos eventos PREMIS;
- sincronização entre Archivematica e AtoM;
- acionamento de agentes inteligentes responsáveis pela transparência ativa.
Se essa hipótese se confirmar, eventos PREMIS deixarão de ser exclusivamente documentação da preservação.
Passarão também a integrar mecanismos ativos de governança arquivística.
AtoM, Archivematica e agentes inteligentes
Durante muitos anos compreendemos AtoM e Archivematica como softwares complementares.
Hoje começamos a imaginar outra arquitetura.
Archivematica preserva.
PREMIS documenta.
Políticas arquivísticas definem regras.
Agentes inteligentes interpretam essas regras.
AtoM disponibiliza acesso.
Portais de transparência ampliam a publicidade.
RAG melhora a recuperação.
Modelos locais garantem soberania informacional.
Nesse cenário.
O elemento integrador deixa de ser o software.
Passa a ser a governança arquivística.
RAG modifica profundamente a recuperação arquivística
Sistemas baseados em Retrieval-Augmented Generation recuperam muito mais do que documentos.
Recuperam relações.
Contextos.
Fragmentos documentais.
Metadados.
Eventos PREMIS.
Descrições.
Representações vetoriais.
Conhecimento institucional.
Essa capacidade amplia extraordinariamente o acesso.
Mas também amplia responsabilidades relacionadas à autenticidade, contexto, proveniência e preservação das evidências.
Talvez a recuperação arquivística inteligente precise ser orientada por princípios arquivísticos desde sua concepção.
E os modelos locais?
Ferramentas como o Ollama introduzem outra questão.
As instituições passam a administrar seus próprios modelos.
Se esses modelos participam de decisões documentais.
Também precisam ser documentados.
Versionados.
Auditados.
Preservados.
Talvez modelos de Inteligência Artificial também passem a integrar políticas arquivísticas de preservação.
🔬 Um resultado inesperado
Percebemos que praticamente toda a literatura internacional sobre Inteligência Artificial discute transparência, explicabilidade, auditabilidade e responsabilidade.
Pouquíssimos trabalhos dialogam profundamente com conceitos clássicos da Arquivologia, como proveniência, cadeia de custódia, autenticidade e contexto.
Talvez aí exista uma contribuição internacional relevante que a Arquivologia pode oferecer.
A ética do arquivista está mudando
Durante décadas a ética profissional concentrou-se na relação entre arquivistas, documentos e sociedade.
Agora novas responsabilidades surgem.
Quem configura agentes inteligentes?
Quem valida bases de treinamento?
Quem define critérios de acesso?
Quem responde por vieses algorítmicos?
Quem documenta decisões automatizadas?
Quem preserva evidências dos processos computacionais?
Talvez nunca a responsabilidade ética do arquivista tenha sido tão ampla.
A transformação digital da formação arquivística
Talvez uma das consequências mais profundas dessa transformação recaia sobre a formação dos futuros arquivistas.
Não basta conhecer apenas descrição, avaliação, classificação, preservação e gestão documental.
Os cursos precisarão dialogar também com:
- Inteligência Artificial;
- Ciência de Dados;
- Computational Archival Science;
- Modelos Vetoriais;
- RAG;
- Ollama e modelos locais;
- Engenharia de Prompts;
- Explainable AI;
- Trustworthy AI;
- Governança Algorítmica;
- LGPD;
- Segurança da Informação;
- Curadoria de Dados;
- Auditoria Algorítmica;
- Infraestruturas Digitais;
- Conhecimento computacional suficiente para dialogar com equipes multidisciplinares.
Mas existe algo ainda mais importante.
Nada disso substituirá a Arquivologia.
Ao contrário.
Os fundamentos arquivísticos tornar-se-ão ainda mais necessários para orientar essas novas competências.
🤔 Uma hipótese parcialmente reformulada
No início acreditávamos que a transformação digital exigiria que a Arquivologia aprendesse Inteligência Artificial.
Hoje começamos a suspeitar do contrário.
Talvez a Inteligência Artificial precise aprender Arquivologia.
🌱 Uma hipótese em construção
Começamos este programa de pesquisa tentando compreender documentos digitais.
Hoje começamos a perceber que talvez estejamos construindo os fundamentos de uma governança responsável para documentos, dados, algoritmos, agentes inteligentes e memória institucional.
Ainda não sabemos se essa hipótese se confirmará.
Mas ela passou a orientar nosso programa científico.
🧭 Agenda de Pesquisa
Nas próximas etapas pretendemos aprofundar, entre outras, as seguintes questões:
- Como incorporar princípios arquivísticos à governança de agentes inteligentes?
- Como representar proveniência e contexto em arquiteturas baseadas em RAG?
- Como documentar e preservar modelos locais utilizados por instituições públicas?
- Como utilizar eventos PREMIS como mecanismos ativos de governança?
- Como integrar LGPD, Lei de Acesso à Informação e Cadeia de Custódia Digital Arquivística em ambientes inteligentes?
- Como preparar uma nova geração de arquivistas para atuar em equipes multidisciplinares de IA, preservação digital e transformação digital?
🔭 Olhando dez anos à frente
Se nossas hipóteses estiverem corretas, talvez, em 2036, a Arquivologia seja reconhecida não apenas como a disciplina responsável pela gestão e preservação de documentos, mas também como uma das principais referências internacionais para a governança responsável de documentos, dados, algoritmos e sistemas inteligentes.
Talvez esse seja o próximo grande capítulo da Arquivologia.
E talvez ele já tenha começado.
💬 Vamos continuar esta conversa?
Na sua instituição, quem será responsável por governar os agentes inteligentes que produzirão, classificarão, preservarão e disponibilizarão documentos arquivísticos?
Os profissionais de TI?
Os cientistas de dados?
Os gestores?
Ou os arquivistas, atuando em equipes multidisciplinares e trazendo para esse novo cenário os princípios de autenticidade, proveniência, contexto, cadeia de custódia, responsabilidade e confiança institucional?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que nossa comunidade precisará responder nos próximos anos.
Comentários
Postar um comentário
Comente aqui, por favor .....