Documento de Pesquisa nº 04 O OAIS é suficiente para a Arquivologia? Uma leitura arquivística do modelo mais influente da preservação digital
PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa
Documento de Pesquisa nº 04
O OAIS é suficiente para a Arquivologia?
Uma leitura arquivística do modelo mais influente da preservação digital
25 de fevereiro de 2026
🌎 Ciência Aberta
Os Diários de Pesquisa do Grupo PDS & Ged/A constituem um espaço permanente de Ciência Aberta dedicado ao compartilhamento de hipóteses, resultados parciais, agendas de investigação e reflexões sobre Arquivologia Digital. Nosso objetivo não é apenas divulgar resultados consolidados, mas compartilhar o próprio processo de construção do conhecimento, convidando pesquisadores, profissionais, estudantes e instituições a participarem dessa caminhada.
Bem-vindos novamente ao nosso laboratório de pesquisa
Nos últimos três Documentos de Pesquisa conversamos sobre algumas ideias que vêm amadurecendo durante nosso Seminário Permanente.
Primeiro perguntamos se a transformação digital realmente modificou os fundamentos da Arquivologia.
Depois discutimos por que a preservação digital nunca foi apenas uma questão tecnológica.
Por fim, propusemos olhar para os ambientes documentais contemporâneos como ecossistemas, e não apenas como sistemas isolados.
Naturalmente, todas essas discussões nos conduziram a outro tema.
Talvez o modelo mais conhecido da preservação digital.
O OAIS.
Durante muitos anos utilizamos o OAIS em cursos, projetos, consultorias, pesquisas e implantações de repositórios digitais.
Sempre o consideramos uma das maiores contribuições já produzidas para a preservação digital.
Mas, ao revisitarmos nossa própria trajetória, percebemos que talvez também tivéssemos algumas perguntas que ainda precisavam ser feitas.
📓 Caderno de Laboratório
Janeiro de 2026
Durante uma das reuniões alguém perguntou:
"Quando dizemos que um RDC-Arq implementa o OAIS, estamos realmente implementando o OAIS ou estamos implementando uma leitura arquivística do OAIS?"
A sala ficou em silêncio por alguns segundos.
Talvez porque todos percebemos que nunca havíamos formulado essa pergunta dessa maneira.
O OAIS mudou completamente a preservação digital
Poucos modelos exerceram tanta influência quanto o OAIS.
Ele organizou funções.
Definiu responsabilidades.
Estabeleceu uma linguagem comum.
Permitiu que diferentes comunidades dialogassem sobre preservação digital utilizando uma mesma arquitetura conceitual.
Sua importância é inquestionável.
Sem o OAIS provavelmente a preservação digital teria seguido caminhos muito mais fragmentados.
Mas exatamente por sua enorme influência, talvez também seja importante compreender seus limites.
💡 Um dos nossos achados
Ao longo de muitos anos percebemos que existe uma pequena confusão bastante comum.
Frequentemente ouvimos afirmações como:
"O OAIS é um modelo arquivístico."
Hoje acreditamos que essa afirmação merece uma reflexão mais cuidadosa.
O OAIS não nasceu na Arquivologia.
Ele nasceu na comunidade espacial internacional para resolver problemas relacionados à preservação de informação digital.
Sua vocação sempre foi preservar informação.
Não necessariamente documentos de arquivo.
Essa diferença pode parecer pequena.
Mas possui enormes consequências conceituais.
Informação não é exatamente a mesma coisa que documento arquivístico
Talvez aqui esteja uma das contribuições mais importantes da Arquivologia para a preservação digital.
Documentos arquivísticos não são apenas informação.
Eles possuem contexto.
Proveniência.
Organicidade.
Responsabilidades.
Valor probatório.
Relações institucionais.
Tudo isso ultrapassa aquilo que normalmente entendemos por objeto informacional.
Talvez por isso o OAIS, sozinho, nunca tenha sido suficiente para explicar a preservação arquivística.
🔬 Um resultado inesperado do Seminário
Ao revisarmos a literatura percebemos algo interessante.
Em praticamente todos os grandes projetos arquivísticos que utilizam o OAIS existe um elemento adicional.
Requisitos arquivísticos.
Políticas arquivísticas.
Metadados arquivísticos.
Modelos de gestão documental.
Cadeias de custódia.
Governança.
Em outras palavras.
O OAIS nunca trabalha sozinho.
Talvez sempre tenha dependido da Arquivologia para tornar possível a preservação de documentos arquivísticos.
Talvez tenhamos interpretado o OAIS de maneira incompleta
Essa hipótese ainda está amadurecendo.
Mas começamos a perceber que talvez o OAIS deva ser compreendido como uma arquitetura preservacional.
Quem lhe confere natureza arquivística são os princípios da Arquivologia.
É a proveniência.
É a organicidade.
É a cadeia de custódia.
São os requisitos arquivísticos.
É a gestão documental.
É a governança.
Talvez essa leitura explique por que softwares como o Archivematica somente se tornam efetivamente arquivísticos quando inseridos em uma arquitetura institucional baseada nesses princípios.
🤔 Uma discussão que continua aberta
Durante nosso Seminário também surgiram posições diferentes.
Alguns colegas defendem que o OAIS já contempla todas essas questões.
Outros entendem que elas pertencem a disciplinas distintas.
Nossa percepção, pelo menos até este momento, é outra.
Talvez o OAIS e a Arquivologia não concorram entre si.
Talvez se complementem.
Talvez um explique a preservação.
E a outra explique os documentos que precisam ser preservados.
Seguimos investigando.
Talvez este seja o verdadeiro papel da Arquivologia
Quanto mais estudamos preservação digital, menos acreditamos que a principal contribuição da Arquivologia esteja na criação de novos softwares.
Talvez sua maior contribuição continue sendo outra.
Explicar por que determinados documentos precisam permanecer autênticos.
Confiáveis.
Compreensíveis.
Relacionados ao contexto que lhes deu origem.
Se essa hipótese estiver correta, então a Arquivologia não utiliza simplesmente o OAIS.
Ela dialoga criticamente com ele.
Complementa-o.
E o incorpora dentro de arquiteturas institucionais muito mais amplas.
🌱 Uma hipótese em construção
Talvez o futuro da preservação digital não dependa de novos modelos.
Talvez dependa da capacidade de integrar modelos já consolidados.
OAIS.
Requisitos arquivísticos.
Cadeia de Custódia Digital Arquivística.
Preservação Digital Sistêmica.
Ecossistemas Arquivísticos Digitais.
Cada um parece explicar uma dimensão diferente da mesma realidade.
Talvez seja justamente essa integração que estejamos começando a compreender.
Seguimos aprendendo
Talvez uma das maiores lições deste Seminário seja perceber que até mesmo os modelos mais consolidados continuam abertos a novas interpretações.
Isso não diminui sua importância.
Pelo contrário.
Mostra que continuam vivos.
E modelos vivos continuam produzindo novas perguntas.
É exatamente isso que esperamos continuar fazendo nos próximos Documentos de Pesquisa.
💬 Vamos continuar esta conversa?
Na sua experiência profissional, o OAIS tem sido utilizado como um modelo suficiente para orientar a preservação arquivística?
Ou você também percebe a necessidade de complementá-lo com princípios, requisitos e práticas próprias da Arquivologia?
Gostaríamos muito de conhecer sua experiência.
📅 Próximo Documento de Pesquisa
10 de março de 2026
A Cadeia de Custódia Digital Arquivística revisitada
Como um conceito desenvolvido para responder aos desafios dos documentos digitais passou a explicar a continuidade institucional em ambientes arquivísticos contemporâneos.
A pesquisa continua.
E esperamos continuar construindo esse conhecimento com você.
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