Caderno Técnico nº 1 Dados Elaboradores em Arquivos de Engenharia: enriquecendo documentos arquivísticos digitais no Archivematica (RDC-Arq) Parte 4 – Dados Elaboradores, OAIS e a Preservação Digital Sistêmica
Caderno Técnico nº 1
Dados Elaboradores em Arquivos de Engenharia: enriquecendo documentos arquivísticos digitais no Archivematica (RDC-Arq)
Parte 4 – Dados Elaboradores, OAIS e a Preservação Digital Sistêmica
Até este ponto, apresentamos diferentes estratégias para organizar documentos de engenharia dentro de um Submission Information Package (SIP), demonstrando como o Archivematica permite preservar conjuntamente o documento de manifestação e os respectivos Dados Elaboradores.
Entretanto, permanece uma questão fundamental.
Por que preservar todos esses documentos?
A resposta não está apenas na capacidade futura de reutilização técnica desses arquivos.
Ela está diretamente relacionada aos próprios fundamentos da Arquivologia, da Diplomática Contemporânea e do Modelo OAIS (ISO 14721).
Quando um documento arquivístico digital ingressa em um Repositório Arquivístico Digital Confiável (RDC-Arq), ele deixa de ser compreendido apenas como um arquivo eletrônico.
Passa a integrar um Pacote de Informação cuja finalidade é garantir sua preservação, autenticidade, inteligibilidade e acesso permanente.
Sob essa perspectiva, preservar um documento significa preservar também todas as informações necessárias para que ele continue sendo compreendido pelas futuras Comunidades Designadas previstas pelo Modelo OAIS.
É justamente nesse ponto que os Dados Elaboradores assumem papel estratégico.
Dados Elaboradores como Informação de Representação
O Modelo OAIS estabelece que um objeto digital somente poderá ser compreendido no futuro se estiver acompanhado da Information Representation, ou seja, do conjunto de informações necessárias para interpretar corretamente seu conteúdo.
Tradicionalmente, essa Informação de Representação é associada a elementos como:
especificações de formatos digitais;
documentação técnica;
esquemas XML;
dicionários de dados;
documentação de software;
padrões de codificação.
Todos esses elementos continuam absolutamente necessários.
Entretanto, quando analisamos documentos arquivísticos complexos, especialmente aqueles produzidos em ambientes de engenharia, percebe-se que a interpretação futura depende também da compreensão do processo que lhes deu origem.
Um arquivo PDF contendo uma planta estrutural preserva a manifestação documental.
Mas dificilmente permitirá compreender, isoladamente:
quais modelos serviram de base para sua elaboração;
quais cálculos justificaram determinadas soluções estruturais;
quais levantamentos topográficos originaram o projeto;
quais modelos BIM estavam associados àquela representação gráfica;
quais revisões ocorreram durante o desenvolvimento do documento.
Nesse sentido, os Dados Elaboradores passam a desempenhar uma função semelhante à Informação de Representação descrita pelo OAIS.
Não substituem a Representation Information prevista pela norma.
Mas a enriquecem significativamente sob a perspectiva arquivística.
Preservar esses documentos significa preservar parte essencial da inteligibilidade futura do documento arquivístico.
Diplomática Contemporânea e a gênese documental
Sob a ótica da Diplomática Contemporânea, um documento arquivístico não deve ser compreendido apenas por sua manifestação final.
Ele representa o resultado de um processo de produção documental desenvolvido no exercício de uma atividade institucional.
Cada revisão.
Cada cálculo.
Cada modelo.
Cada compatibilização.
Cada simulação.
Cada memorial.
Cada levantamento.
Constitui evidência documental produzida durante esse processo.
Naturalmente, nem todos esses documentos possuirão o mesmo valor jurídico ou probatório da manifestação oficialmente aprovada.
Entretanto, todos eles podem contribuir para explicar como aquele documento foi produzido.
Essa capacidade explicativa amplia significativamente o contexto arquivístico preservado.
Ao preservar conjuntamente manifestação documental e Dados Elaboradores, o RDC-Arq preserva não apenas o resultado da atividade, mas também evidências do processo de sua construção.
Cadeia de Custódia Digital Arquivística
A proposta também fortalece a Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA).
Normalmente, a cadeia de custódia é compreendida como a documentação das sucessivas responsabilidades exercidas sobre um documento arquivístico.
Na preservação digital, entretanto, essa cadeia torna-se muito mais ampla.
Ela envolve:
produção;
captura;
classificação;
avaliação;
organização;
preservação;
descrição;
acesso.
Ao incorporar os Dados Elaboradores ao SIP, amplia-se também a documentação dessa cadeia.
Os documentos preservados deixam de representar apenas o produto final da atividade administrativa.
Passam a representar também parte significativa de sua evolução técnica.
Consequentemente, fortalece-se a autenticidade arquivística do conjunto documental.
O Archivematica como Repositório Arquivístico Digital Confiável
Essa proposta encontra respaldo na própria arquitetura do Archivematica.
Conforme discutido anteriormente, o Archivematica implementa as funções de um Repositório Arquivístico Digital Confiável (RDC-Arq) em conformidade com o Modelo OAIS.
Durante o processo de ingestão, o sistema:
recebe o SIP;
identifica formatos;
valida objetos digitais;
registra eventos de preservação;
documenta agentes;
calcula verificações de integridade;
produz metadados PREMIS;
estrutura o pacote utilizando BagIt;
gera o arquivo METS;
cria o AIP destinado à preservação permanente;
produz o DIP destinado às plataformas arquivísticas de acesso.
Observe que, durante todo esse processo, o Archivematica preserva muito mais do que arquivos.
Preserva relações.
Preserva metadados.
Preserva contexto.
Preserva evidências.
Preserva a organização intelectual construída durante o Appraisal.
Quando o SIP contém também os Dados Elaboradores, essas relações passam a integrar permanentemente o AIP.
O arquivo METS como representação arquivística
Uma consequência direta dessa estratégia encontra-se na própria estrutura do arquivo METS (Metadata Encoding and Transmission Standard).
Frequentemente o METS é compreendido apenas como um arquivo técnico utilizado pelo Archivematica.
Na realidade, ele representa muito mais do que isso.
O METS constitui a representação estruturada do próprio pacote arquivístico.
Nele encontram-se documentadas:
as relações entre os documentos;
a organização hierárquica construída durante o Appraisal;
os objetos digitais preservados;
os metadados técnicos;
os metadados administrativos;
os eventos de preservação;
as relações de proveniência;
os direitos;
a estrutura lógica representada pela logical structMap.
Sob a perspectiva diplomática, o arquivo METS torna-se um documento fundamental para compreender como o Repositório Arquivístico Digital Confiável preservou o conjunto documental.
Por esse motivo, defendemos que sua análise deve integrar a formação de arquivistas responsáveis pela implantação de RDC-Arq.
Uma proposta para Arquivos de Engenharia
Os Arquivos de Engenharia representam um ambiente privilegiado para aplicação dessa metodologia.
Poucos conjuntos documentais apresentam uma quantidade tão grande de documentos produzidos durante a elaboração técnica quanto projetos de engenharia, arquitetura e infraestrutura.
Ao preservar conjuntamente documentos de manifestação e Dados Elaboradores, o Archivematica passa a representar não apenas o resultado documental da atividade administrativa, mas também parte significativa de sua construção intelectual.
Essa abordagem fortalece a autenticidade, amplia a inteligibilidade, preserva o contexto funcional e aproxima a prática arquivística dos desafios colocados pelos documentos digitais complexos produzidos nas organizações contemporâneas.
Mais do que preservar arquivos, preserva-se conhecimento documentado, contexto arquivístico e evidências da atividade institucional, assegurando que as futuras gerações possam compreender não apenas o que foi produzido, mas também como, por que e com quais fundamentos técnicos aquele documento arquivístico passou a existir.
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