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Da Recuperação de Documentos à Recuperação de Evidências: uma nova fronteira para a Arquivologia?

 

Cadernos de Pesquisa em Preservação Digital Sistêmica e Cadeia de Custódia Digital Arquivística

Post 8 — Da Recuperação de Documentos à Recuperação de Evidências: uma nova fronteira para a Arquivologia?

Ao longo dos últimos séculos, os Arquivos foram organizados para cumprir uma missão essencial: permitir que pessoas encontrassem documentos.

Inventários, catálogos, guias, instrumentos de pesquisa, bases de dados e, mais recentemente, sistemas digitais de acesso foram concebidos para aproximar os usuários dos documentos arquivísticos. Em todos esses casos, havia uma lógica relativamente estável: o Arquivo organizava, descrevia e preservava os documentos; o usuário os recuperava e, a partir deles, produzia conhecimento.

Durante muito tempo, essa dinâmica foi suficiente.

Mas talvez estejamos diante de uma mudança que pode alterar profundamente essa relação.

Pela primeira vez, os usuários começam a não acessar diretamente os documentos.

Eles passam a acessar respostas produzidas a partir dos documentos.

Essa diferença pode parecer sutil.

Mas suas consequências para a Arquivologia são profundas.

Quando um pesquisador consulta um inventário e localiza um processo administrativo, um prontuário, um dossiê ou uma correspondência, ele próprio realiza a interpretação das evidências ali presentes. O conhecimento é produzido a partir de sua leitura, de sua análise e de sua capacidade de contextualizar os documentos.

Entretanto, quando uma Inteligência Artificial responde a uma pergunta com base em milhares de documentos, parte desse processo interpretativo deixa de ocorrer diretamente no usuário e passa a ser intermediado por sistemas computacionais.

Surge então uma nova situação.

O documento continua existindo.

A evidência continua existindo.

Mas a interação do usuário já não ocorre necessariamente com o documento.

Ela passa a ocorrer com uma síntese produzida a partir dele.

E é justamente nesse ponto que emerge uma questão que talvez ainda não tenha recebido a atenção necessária da Arquivologia.

Durante décadas, aprendemos a perguntar:

Este documento é autêntico?

Talvez seja o momento de começar a perguntar também:

Esta resposta está fundamentada em evidências arquivísticas autênticas?

A diferença é fundamental.

A autenticidade continua sendo uma propriedade dos documentos.

Nenhuma Inteligência Artificial transforma uma resposta em um documento autêntico.

Mas as respostas produzidas por sistemas inteligentes podem ser mais ou menos confiáveis dependendo da qualidade das evidências utilizadas para construí-las.

Nesse cenário, conceitos clássicos da Arquivologia tornam-se ainda mais relevantes.

A proveniência.

A organicidade.

O contexto.

A custódia.

A preservação.

A autenticidade.

Todos eles continuam desempenhando papel central.

Na verdade, tornam-se ainda mais importantes.

Quanto mais sofisticadas forem as Inteligências Artificiais, maior será a necessidade de evidências documentais confiáveis para sustentá-las.

Sem contexto, a IA produz respostas descontextualizadas.

Sem proveniência, produz interpretações frágeis.

Sem autenticidade, produz conclusões cuja confiabilidade não pode ser demonstrada.

Sem custódia, perde-se a capacidade de demonstrar a integridade da evidência utilizada.

Talvez seja por isso que a discussão sobre Inteligência Artificial nos Arquivos não possa ser reduzida a uma questão tecnológica.

Não se trata apenas de utilizar modelos mais avançados, mecanismos de vetorização mais eficientes ou sistemas de recuperação semântica mais sofisticados.

Trata-se de compreender que o verdadeiro diferencial dos Arquivos não está na tecnologia em si.

Está na qualidade das evidências que eles preservam.

Nesse sentido, arquiteturas baseadas em RAG (Retrieval-Augmented Generation), integradas a ambientes como AtoM, Archivematica, ElasticSearch vetorial e modelos locais de Inteligência Artificial, podem representar uma mudança histórica.

Pela primeira vez, torna-se possível construir sistemas capazes de responder perguntas não apenas com base em informações disponíveis na Web, mas fundamentados em documentos arquivísticos autênticos, preservados e contextualizados.

A recuperação deixa de ser apenas documental.

Passa a ser evidencial.

O objetivo deixa de ser simplesmente encontrar documentos.

Passa a ser recuperar evidências capazes de sustentar respostas.

Talvez estejamos assistindo ao surgimento de uma nova camada de acesso arquivístico.

Uma camada na qual os documentos permanecem como fonte primária de autoridade, mas em que a interação dos usuários ocorre por meio de evidências mediadas por sistemas inteligentes.

Se essa hipótese estiver correta, uma nova fronteira começa a se abrir para a Arquivologia.

Durante séculos, os Arquivos preservaram documentos para que os seres humanos produzissem conhecimento.

Nas próximas décadas, talvez precisem preservar evidências para que seres humanos e Inteligências Artificiais possam produzir conhecimento confiável juntos.

E isso nos leva a uma reflexão final.

Talvez a grande transformação trazida pela Inteligência Artificial não esteja na forma como preservamos documentos.

Talvez esteja na forma como acessamos, interpretamos e produzimos conhecimento a partir deles.

Os documentos continuarão sendo o fundamento da autenticidade.

Mas as evidências poderão se tornar a nova unidade de acesso na era da Inteligência Artificial.


Uma hipótese para debate

Se os sistemas arquivísticos do século XX foram construídos para recuperar documentos, os sistemas arquivísticos do século XXI poderão ser construídos para recuperar evidências.

E talvez essa seja uma das transformações mais profundas já vivenciadas pela Arquivologia desde o surgimento dos próprios arquivos digitais.

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