Cadernos Técnicos do Curso Archivematica – RDC-Arq Caderno Técnico nº 1 Dados Elaboradores em Arquivos de Engenharia: enriquecendo documentos arquivísticos digitais no Archivematica (RDC-Arq)
Cadernos Técnicos do Curso Archivematica – RDC-Arq
Caderno Técnico nº 1
Dados Elaboradores em Arquivos de Engenharia: enriquecendo documentos arquivísticos digitais no Archivematica (RDC-Arq)
Introdução
A transformação digital das atividades de engenharia modificou profundamente a forma como os documentos arquivísticos são produzidos, utilizados, preservados e disponibilizados para acesso. Se, durante décadas, os arquivos de engenharia foram constituídos predominantemente por plantas em papel, memoriais descritivos impressos, relatórios técnicos e projetos físicos, atualmente praticamente todo o processo de concepção, desenvolvimento, revisão e aprovação de empreendimentos ocorre em ambientes totalmente digitais.
Essa mudança não alterou apenas o suporte dos documentos. Alterou também sua própria natureza enquanto objeto arquivístico.
Hoje, uma planta arquitetônica oficialmente aprovada raramente corresponde a um único arquivo digital. O documento colocado em acesso institucional — normalmente um arquivo PDF ou PDF/A — representa apenas uma das manifestações produzidas durante um processo muito mais amplo de elaboração técnica.
Antes da geração desse documento final, diversos outros documentos digitais foram produzidos, modificados e utilizados ao longo do desenvolvimento do projeto.
Modelos CAD, modelos BIM, planilhas de cálculo estrutural, memoriais técnicos, bancos de dados geoespaciais, fotografias de campo, levantamentos topográficos, simulações computacionais, modelos tridimensionais, documentos de compatibilização e inúmeros outros objetos digitais participam diretamente da elaboração intelectual do documento arquivístico posteriormente aprovado.
Entretanto, na maior parte das instituições, esses documentos permanecem dispersos em diretórios de trabalho, estações individuais, servidores departamentais ou ambientes colaborativos, sendo frequentemente tratados apenas como arquivos auxiliares, documentos intermediários ou simples versões de trabalho.
Sob a perspectiva arquivística, essa interpretação merece ser revista.
Uma nova perspectiva para os documentos digitais de engenharia
Na Arquivologia tradicional, a autenticidade documental sempre esteve associada à preservação da forma documental, do contexto de produção e da cadeia de custódia.
Com o advento dos documentos arquivísticos digitais, entretanto, tornou-se evidente que preservar apenas a manifestação final do documento nem sempre é suficiente para preservar integralmente sua capacidade de interpretação futura.
Um projeto executivo em formato PDF pode continuar perfeitamente acessível daqui a trinta anos.
Entretanto, diversas perguntas poderão permanecer sem resposta:
Como esse projeto foi elaborado?
Quais modelos serviram de base para sua construção?
Quais cálculos estruturais fundamentaram suas dimensões?
Quais revisões ocorreram durante sua elaboração?
Quais softwares participaram de sua produção?
Quais modelos tridimensionais estavam associados ao documento aprovado?
Quais fotografias, levantamentos topográficos ou estudos geotécnicos fundamentaram as decisões de projeto?
Responder a essas perguntas significa preservar não apenas o documento oficialmente aprovado, mas também parte significativa do contexto técnico responsável por sua produção.
É justamente nesse ponto que propomos ampliar a forma de compreender os documentos arquivísticos digitais produzidos em ambientes de engenharia.
Dados Elaboradores
Neste Caderno Técnico utilizamos a expressão Dados Elaboradores para representar o conjunto de objetos digitais produzidos durante a elaboração de um documento arquivístico digital e que contribuem diretamente para sua construção intelectual.
Não se trata de substituir o documento arquivístico principal.
Tampouco de atribuir aos Dados Elaboradores o mesmo valor jurídico da manifestação oficialmente aprovada.
Ao contrário.
O documento oficialmente aprovado continua representando a manifestação diplomática do ato administrativo.
Entretanto, os Dados Elaboradores passam a integrar o contexto arquivístico desse documento, preservando evidências da atividade técnica responsável por sua produção.
Nesse sentido, um arquivo DWG utilizado para produzir uma planta arquitetônica, uma planilha de cálculo estrutural, um modelo BIM em formato RVT, uma nuvem de pontos obtida por laser scanner ou um levantamento fotogramétrico deixam de ser compreendidos apenas como arquivos auxiliares.
Passam a representar componentes relevantes da representação documental preservada pelo repositório.
Essa abordagem aproxima a preservação digital da própria lógica de produção documental observada nas organizações contemporâneas.
A relação com a Preservação Digital Sistêmica
A proposta apresentada neste trabalho está diretamente relacionada aos princípios da Preservação Digital Sistêmica (PDS) desenvolvidos no âmbito do Grupo de Pesquisa CNPq-UFAL PDS & Ged/A.
Sob essa perspectiva, preservar documentos digitais não significa apenas conservar arquivos em formatos sustentáveis.
Preservar significa manter íntegro todo o sistema de relações que permite compreender, interpretar, autenticar e reutilizar um documento arquivístico ao longo do tempo.
Isso inclui sua classificação documental.
Sua descrição arquivística.
Sua cadeia de custódia.
Seus metadados.
Sua proveniência.
Suas relações funcionais.
E também os documentos produzidos durante sua elaboração.
Os Dados Elaboradores passam, assim, a representar uma camada adicional de contexto documental que amplia significativamente a inteligibilidade futura dos documentos preservados.
O papel do Archivematica
Essa proposta encontra no Archivematica um ambiente extremamente favorável para sua implementação.
Mais do que um software de preservação digital, o Archivematica deve ser compreendido como a implementação de um Repositório Arquivístico Digital Confiável (RDC-Arq), responsável pela preservação de documentos arquivísticos digitais em conformidade com o Modelo OAIS (ISO 14721).
Nesse ambiente, o arquivista deixa de preservar apenas arquivos digitais.
Passa a preservar Pacotes de Informação.
Cada Submission Information Package (SIP) recebido pelo Archivematica representa uma unidade arquivística complexa, composta por documentos digitais, metadados, relações estruturais, informações de preservação e evidências necessárias para garantir a autenticidade e o acesso contínuo aos documentos.
Após os processos de ingestão, normalização, identificação de formatos, geração de metadados técnicos e documentação dos eventos de preservação, o Archivematica produz um Archival Information Package (AIP), destinado à preservação de longo prazo.
Posteriormente, gera também um Dissemination Information Package (DIP) destinado às plataformas arquivísticas de acesso, como o AtoM.
Essa arquitetura oferece uma oportunidade extremamente interessante para os Arquivos de Engenharia.
Ao invés de preservar apenas o documento oficialmente aprovado, torna-se possível preservar, dentro de um mesmo SIP, tanto o documento de manifestação quanto os respectivos Dados Elaboradores, mantendo explicitadas suas relações intelectuais durante todo o ciclo de vida documental.
Objetivos deste Caderno Técnico
Este trabalho apresenta uma proposta prática para organização de documentos arquivísticos digitais de engenharia utilizando o Archivematica como Repositório Arquivístico Digital Confiável.
Serão apresentados exemplos de documentos de manifestação e respectivos Dados Elaboradores, estratégias para organização de SIP complexos, possibilidades de utilização da etapa Appraisal, propostas de enriquecimento documental mediante níveis de descrição arquivística, exemplos de Tipos Documentais característicos de Arquivos de Engenharia e orientações para preservação integrada desses conjuntos documentais.
Ao final, será proposta uma atividade prática que permitirá analisar diplomática e arquivisticamente os Archival Information Packages (AIP) produzidos pelos participantes, compreendendo detalhadamente como o Archivematica registra essas relações por meio do arquivo METS, dos metadados PREMIS, da estrutura BagIt e dos demais componentes previstos pelo Modelo OAIS.
Mais do que apresentar funcionalidades do software, este Caderno Técnico pretende demonstrar como a Arquivologia pode utilizar o Archivematica para representar, preservar e disponibilizar documentos arquivísticos digitais complexos, fortalecendo a Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA), a autenticidade documental e a preservação do contexto de produção em ambientes digitais de engenharia.
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