Cadernos de Pesquisa em Preservação Digital Sistêmica e Cadeia de Custódia Digital Arquivística
Post 9 — Os Arquivos como Infraestrutura da Verdade na Era da Inteligência Artificial
Em 2017, durante o Congresso Internacional do Conselho Internacional de Arquivos (ICA), realizado na Cidade do México, Luciana Duranti apresentou uma conferência magistral intitulada An Infrastructure for Truth: Entrusting Digital Facts to Archival Theory.
O próprio título merece atenção.
Duranti não falava apenas de documentos.
Não falava apenas de preservação.
Não falava apenas de tecnologia.
Falava de algo ainda mais fundamental:
verdade.
Naturalmente, a Arquivologia nunca teve a pretensão de definir o que é a verdade em sentido filosófico.
Mas sempre teve uma preocupação central com algo igualmente importante:
a capacidade de demonstrar fatos por meio de evidências documentais autênticas.
É justamente essa capacidade que parece ganhar uma nova dimensão na era da Inteligência Artificial.
A crise contemporânea não é apenas tecnológica
Muito se fala sobre os riscos da Inteligência Artificial.
Alucinações.
Desinformação.
Deepfakes.
Manipulação algorítmica.
Vieses.
Falta de transparência.
Esses problemas são reais.
Mas talvez exista uma questão ainda mais profunda.
Grande parte das discussões concentra-se em como as máquinas produzem respostas.
Pouca atenção é dada à qualidade das evidências que sustentam essas respostas.
No fundo, a pergunta central não é:
Como a IA responde?
Mas:
A partir de quais evidências ela responde?
A Arquivologia sempre trabalhou com evidências
Muito antes da Inteligência Artificial, os Arquivos já lidavam com esse problema.
A razão de existir dos Arquivos nunca foi apenas guardar documentos.
Sua função sempre esteve associada à preservação de evidências.
Evidências de direitos.
Evidências de decisões.
Evidências de atividades.
Evidências de relações sociais.
Evidências da ação humana.
Por essa razão, conceitos como:
- proveniência;
- organicidade;
- autenticidade;
- integridade;
- custódia;
não foram desenvolvidos apenas para organizar documentos.
Foram desenvolvidos para proteger a capacidade de demonstrar fatos.
O novo desafio da era digital
Nos ambientes digitais, essa missão torna-se mais complexa.
Os documentos deixam de possuir materialidade física.
Os sistemas tornam-se distribuídos.
Os dados multiplicam-se.
As informações circulam em velocidades inéditas.
E as Inteligências Artificiais passam a produzir conhecimento a partir desses ambientes.
Nesse contexto, a questão da autenticidade deixa de ser apenas documental.
Torna-se uma questão social.
Como confiar em respostas produzidas por sistemas automatizados?
Como verificar afirmações?
Como rastrear evidências?
Como demonstrar a origem da informação?
Essas perguntas começam a aproximar a Arquivologia do centro dos debates sobre Inteligência Artificial.
A contribuição da CCDA
É justamente nesse cenário que a Cadeia de Custódia Digital Arquivística ganha relevância.
A CCDA não se limita a proteger documentos.
Ela procura assegurar a continuidade das evidências ao longo do tempo.
Ao garantir o confinamento sistêmico contínuo dos documentos em ambientes digitais confiáveis, interoperáveis e auditáveis, a CCDA fortalece a capacidade de demonstrar a autenticidade das evidências utilizadas por pessoas e sistemas.
Não se trata apenas de preservar arquivos.
Trata-se de preservar confiança.
A contribuição da PDS
Mas a confiança não se sustenta apenas por princípios.
Ela precisa de infraestrutura.
É aqui que entra a Preservação Digital Sistêmica.
A PDS fornece os mecanismos, os sistemas e os processos necessários para que a autenticidade permaneça demonstrável ao longo do tempo.
SIGAD.
Archivematica.
RDC-Arq.
AtoM.
Metadados.
Interoperabilidade.
OAIS.
Todos esses componentes passam a integrar um ecossistema voltado à preservação das evidências digitais.
A confiança deixa de depender de atos declaratórios.
Passa a depender de evidências preservadas.
A Inteligência Artificial precisa dos Arquivos
Durante algum tempo, acreditou-se que a Inteligência Artificial poderia substituir diversas formas tradicionais de produção de conhecimento.
Talvez estejamos começando a perceber o contrário.
Quanto mais avançadas forem as Inteligências Artificiais, maior será sua dependência de evidências autênticas e contextualizadas.
Evidências que, historicamente, sempre foram preservadas pelos Arquivos.
Nesse sentido, os Arquivos deixam de ser apenas usuários da Inteligência Artificial.
Passam a ser uma de suas infraestruturas fundamentais.
Os Arquivos como Infraestrutura da Verdade
Talvez seja essa a principal mensagem que podemos extrair da reflexão proposta por Duranti.
Os Arquivos não preservam a verdade.
A verdade continua sendo objeto de interpretação, debate e construção social.
Mas os Arquivos preservam algo sem o qual a verdade não pode ser discutida de forma responsável:
as evidências.
Em uma época marcada pela abundância de informações, pela velocidade dos fluxos digitais e pela crescente influência da Inteligência Artificial, essa função torna-se ainda mais importante.
Talvez os Arquivos nunca tenham sido tão necessários.
Porque, em um mundo onde qualquer conteúdo pode ser produzido em segundos, a capacidade de demonstrar a origem, o contexto, a autenticidade e a integridade das evidências torna-se um ativo estratégico para instituições, governos e sociedades.
Uma hipótese para debate
Se a sociedade industrial precisou de Arquivos para preservar sua memória, talvez a sociedade da Inteligência Artificial precise deles para preservar sua capacidade de distinguir evidências de meras informações.
Para refletir
Os Arquivos não preservam a verdade.
Preservam as evidências que tornam possível buscá-la.
E talvez essa seja sua contribuição mais importante para a era da Inteligência Artificial.
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