Cadeia de Preservação e Cadeia de Custódia Digital Arquivística: conceitos complementares, não concorrentes
Cadernos de Pesquisa em Preservação Digital Sistêmica e Cadeia de Custódia Digital Arquivística
Post 2 — Cadeia de Preservação e Cadeia de Custódia Digital Arquivística: conceitos complementares, não concorrentes
Após a publicação do primeiro texto desta série, surgiu uma questão extremamente pertinente: se o InterPARES desenvolveu o conceito de Chain of Preservation (Cadeia de Preservação), ainda seria necessário discutir uma Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA)?
Nossa resposta é clara: sim.
Mas para compreender essa resposta, é necessário desfazer uma confusão conceitual que tem se tornado cada vez mais frequente nos debates sobre preservação digital.
Preservação e custódia não são sinônimos.
Embora estejam profundamente relacionadas, respondem a problemas diferentes e pertencem a dimensões distintas da Arquivologia.
A custódia está associada à responsabilidade, à autoridade, à governança, ao controle e à continuidade da confiança depositada nos documentos. Ela responde perguntas como:
Quem é responsável pelos documentos?
Em qual ambiente confiável eles permanecem?
Houve continuidade do controle arquivístico?
A autenticidade pode ser sustentada ao longo do tempo?
Já a preservação está associada aos mecanismos, procedimentos e estratégias utilizados para garantir que os documentos permaneçam acessíveis, compreensíveis e utilizáveis ao longo do tempo.
Ela responde perguntas diferentes:
Como preservar?
Como migrar?
Como monitorar?
Como registrar eventos?
Como documentar transformações tecnológicas?
Foi exatamente para enfrentar esses desafios que o InterPARES desenvolveu o conceito de Chain of Preservation (CoP).
E é importante reconhecer: trata-se de uma das maiores contribuições teóricas e metodológicas já produzidas para a preservação digital.
A Cadeia de Preservação trouxe para o centro da discussão elementos hoje indispensáveis:
controles de preservação;
registros de eventos;
metadados de preservação;
monitoramento contínuo;
rastreabilidade das ações;
documentação das transformações ocorridas nos objetos digitais.
Sem esses elementos, seria praticamente impossível sustentar a autenticidade de documentos digitais ao longo do tempo.
Por essa razão, não entendemos a Cadeia de Preservação como um conceito a ser superado.
Ao contrário.
Consideramos a CoP uma conquista fundamental da Arquivologia contemporânea.
Entretanto, exatamente por sua enorme competência em resolver problemas operacionais e procedimentais da preservação digital, a Cadeia de Preservação acabou evidenciando uma questão que permanece aberta:
Quem responde pela continuidade da custódia quando os documentos circulam entre sistemas digitais?
Em outras palavras, a Cadeia de Preservação consegue explicar o que aconteceu com o documento.
Mas nem sempre consegue responder plenamente:
Onde o documento esteve?
Sob quais sistemas confiáveis permaneceu?
Houve interrupção do ambiente arquivístico?
Houve ruptura do confinamento sistêmico?
A autenticidade permaneceu protegida durante as transferências?
Essas questões continuam pertencendo ao domínio da custódia.
E é exatamente nesse espaço conceitual que propomos a Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA).
A CCDA não pretende substituir a Cadeia de Preservação.
Também não pretende substituir a Cadeia de Custódia tradicional.
Sua função é outra.
Ela busca ressignificar a custódia para ambientes digitais, compreendendo-a como um processo contínuo de confinamento sistêmico em ecossistemas digitais confiáveis, interoperáveis e auditáveis.
Nesse modelo, a Cadeia de Preservação assume um papel essencial.
Ela passa a ser compreendida como o conjunto de procedimentos, mecanismos e evidências técnicas que tornam possível a implementação prática da própria CCDA.
Assim, em vez de concorrência entre os conceitos, o que existe é complementaridade.
Podemos representar essa relação da seguinte forma:
Nível conceitual e arquivístico
Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA)
Responsabilidade • Governança • Confinamento • Autenticidade
↓
Nível operacional e procedimental
Cadeia de Preservação (CoP)
Eventos • Metadados • Monitoramento • Evidências • Controles
↓
Nível tecnológico e sistêmico
Preservação Digital Sistêmica (PDS)
SIGAD • RDC-Arq • OAIS • Interoperabilidade • Infraestrutura
↓
Resultado
Autenticidade Arquivística Sustentável
Sob essa perspectiva, a Cadeia de Preservação não substitui a Cadeia de Custódia.
Ela a fortalece.
A Preservação Digital Sistêmica não substitui a Cadeia de Preservação.
Ela a operacionaliza.
E a Cadeia de Custódia Digital Arquivística não substitui a tradição arquivística.
Ela procura atualizá-la para um contexto em que os documentos já não transitam apenas entre instituições, mas entre sistemas digitais.
Talvez o maior desafio da Arquivologia contemporânea não seja escolher entre custódia ou preservação.
Talvez seja compreender que a autenticidade digital exige ambas.
E que somente a integração entre CCDA, CoP e PDS permitirá enfrentar, de forma consistente, os desafios da preservação de documentos arquivísticos digitais nas próximas décadas.
Uma hipótese para debate
Se a Cadeia de Custódia foi o principal instrumento de confiança da Arquivologia analógica e a Cadeia de Preservação se tornou o principal instrumento operacional da preservação digital, seria a Cadeia de Custódia Digital Arquivística o próximo passo necessário para sustentar a autenticidade em ecossistemas digitais complexos?
Essa é a reflexão que deixamos para a comunidade arquivística.
No próximo texto desta série, discutiremos uma nova fronteira dessa agenda de pesquisa:
O Iceberg da Inteligência Artificial nos Arquivos.
Por que as Inteligências Artificiais atuais conhecem apenas a parte visível da memória documental?
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