Pular para o conteúdo principal

Definindo os níveis de descrição no Archivematica para envio de DIPs ao AtoM

Definindo os níveis de descrição no Archivematica para envio de DIPs ao AtoM

Um dos recursos mais importantes — e, ao mesmo tempo, menos explorados — da aba Appraisal do Archivematica é a possibilidade de definir os níveis de descrição arquivística que serão utilizados quando um DIP (Dissemination Information Package) for enviado ao AtoM.

Essa funcionalidade permite que a estrutura intelectual construída durante o arranjo documental seja preservada e reproduzida automaticamente no AtoM, evitando descrições planas e mantendo a organização arquivística prevista pelos princípios da descrição multinível.

Antes de tudo: configure o AtoM

Existe um detalhe que costuma passar despercebido.

Os níveis de descrição que aparecem no Archivematica não são fixos. Eles são obtidos diretamente do AtoM.

Antes de utilizar esta funcionalidade, é necessário configurar corretamente a integração entre os dois sistemas na área de Administração do Archivematica, utilizando a opção Fetch levels of description.

Essa operação faz com que o Archivematica consulte o AtoM e importe todos os níveis de descrição cadastrados naquele ambiente.

Isso significa que qualquer personalização realizada no AtoM será automaticamente disponibilizada no Archivematica.

Por exemplo, se sua instituição criou níveis adicionais como:

  • Grupo;

  • Série Funcional;

  • Subsérie Funcional;

  • Tipo Documental;

  • Dossiê Digital Permanente;

todos esses níveis passarão a aparecer na lista de seleção durante o processo de arranjo do SIP.

Em outras palavras:

o Archivematica utiliza exatamente os níveis de descrição existentes no AtoM.

Por isso, a configuração do AtoM deve ser realizada antes da preparação dos SIPs e, principalmente, antes da geração dos DIPs destinados à plataforma de acesso.



A relação com a ISAD(G)

Essa funcionalidade implementa, na prática, a lógica da descrição arquivística multinível prevista pela ISAD(G).

Durante o arranjo do SIP, cada diretório ou objeto digital pode receber um nível de descrição correspondente à posição que ocupa na hierarquia arquivística.

Dependendo da estrutura adotada pela instituição, poderão ser utilizados níveis como:

  • Fundo;

  • Seção;

  • Subseção;

  • Série;

  • Subsérie;

  • Dossiê;

  • Processo;

  • Item Documental.

Quando o DIP for enviado ao AtoM, essa estrutura será utilizada para construir automaticamente a árvore hierárquica da descrição arquivística.

O Archivematica registra essa organização dentro do arquivo METS por meio da logical structMap, que representa a estrutura lógica do acervo e será interpretada pelo AtoM durante a importação.

O resultado é uma descrição consistente com os princípios da ISAD(G), preservando o contexto de produção e as relações hierárquicas entre os documentos.

O que acontece se nenhum nível for definido?

Caso nenhum nível de descrição seja atribuído durante o arranjo do SIP, o comportamento do AtoM será bastante diferente.

Todos os objetos digitais serão importados como descrições-filhas diretamente da descrição de destino.

Na prática, ocorre um "achatamento" da estrutura arquivística.

Além disso, quando um objeto digital não recebe explicitamente um nível de descrição, o AtoM atribui automaticamente o nível Item.

Embora isso permita a importação do DIP, perde-se completamente a organização multinível da descrição arquivística.

Por esse motivo, recomenda-se sempre realizar o arranjo e atribuir os níveis correspondentes antes da criação do SIP.

O nível "Tipo Documental": um elemento estratégico

Entre todos os níveis possíveis, existe um que consideramos absolutamente fundamental para projetos de gestão documental e preservação digital: Tipo Documental.

Nossa proposta consiste em utilizar esse nível como o último contêiner intelectual imediatamente anterior ao objeto digital.

Esse contêiner corresponde, na prática, ao elemento terminal do Plano de Classificação de Documentos (PCD).

Ou seja, cada Tipo Documental representa exatamente uma classe documental prevista no plano de classificação.

Dessa forma, o código de classificação do PCD pode ser associado diretamente ao nível Tipo Documental, estabelecendo uma ligação explícita entre:

  • a classificação documental;

  • a descrição arquivística;

  • a preservação digital;

  • e a plataforma de acesso.

Com isso, a estrutura enviada pelo Archivematica ao AtoM deixa de representar apenas uma organização física de diretórios e passa a refletir a organização intelectual dos documentos produzidos pela instituição.

Essa abordagem fortalece a interoperabilidade entre os instrumentos arquivísticos e aproxima a classificação documental, a descrição, a preservação digital e o acesso em um único fluxo integrado.

Fluxo recomendado

Nossa recomendação é seguir sempre esta sequência:

  1. Configurar e personalizar os níveis de descrição no AtoM;

  2. Executar o Fetch levels of description no Archivematica;

  3. Organizar o SIP na aba Appraisal → Arrange;

  4. Atribuir os níveis de descrição a cada diretório ou objeto digital;

  5. Criar o SIP;

  6. Gerar o DIP;

  7. Enviar o DIP ao AtoM.

Seguindo esse fluxo, o AtoM reconstruirá automaticamente a estrutura hierárquica da descrição arquivística a partir das informações registradas pelo Archivematica, preservando a organização multinível prevista pela ISAD(G) e garantindo maior consistência entre classificação, descrição, preservação e acesso aos documentos arquivísticos digitais.

Nossa recomendação: personalize previamente os níveis de descrição do AtoM para refletir a realidade institucional. Em especial, considere a inclusão do nível Tipo Documental, que permite representar diretamente as classes terminais do Plano de Classificação de Documentos (PCD), estabelecendo uma conexão natural entre classificação arquivística, Cadeia de Custódia Digital Arquivística (CCDA), preservação digital sistêmica e acesso por meio de Plataformas Arquivísticas de Transparência Ativa acordes ao Modelo OAIS (ISO 14721 – RDC-Arq). 

Prof. Daniel Flores/Grupo CNPq UFAL PDS & Ged/A

Curso de Archivematica - RDC-Arq.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Inovação Sustentada

 Inovação Sustentada: Construindo o Futuro com Fundamentos Sólidos No dinâmico cenário da transformação digital, somos constantemente bombardeados com conceitos como "disrupção" e "inovação". Mas, você já se perguntou sobre a Inovação Sustentada e por que ela é tão importante, especialmente em áreas que exigem confiabilidade e estabilidade, como a Arquivologia? O que é Inovação Sustentada? A inovação sustentada é um tipo de inovação que se baseia em referenciais sólidos, ou seja, está profundamente enraizada no arcabouço teórico, epistêmico e metodológico de uma área de conhecimento específica. Em vez de buscar o "novo pelo novo", ela se concentra em aprimorar produtos e serviços já existentes, atendendo às necessidades dos consumidores atuais e seguindo as definições originais de desempenho e qualidade do mercado. Isso significa que a inovação sustentada é o resultado de um estudo minucioso, que harmoniza as demandas do mercado com o rigor científico. Por...

CNA Salvador 2024

ATENÇÃO! O compromisso bienal dos arquivistas no Brasil  já tem data e local: 14 a 18 de outubro de 2024 no Auditório de Eventos do Quality Hotel e Suítes São Salvador em Salvador/BA! O tema é fundamentado nos cenários que compõem a Epistemologia arquivística, e dentre estes, nas últimas décadas, a Arquivologia tem dialogado de modo profícuo com a Ciência da Informação, Tecnologia da informação e áreas correlatas.  Na contemporaneidade, o movimento na cena da ciência dos arquivos parece apontar para uma nova conjuntura, em que a sua episteme apresenta entrelaços e perspectivas oportunas e desafiadoras com a emergente tecnologia disruptiva, que envolve a Ciência de Dados e a Inteligência Artificial.  Diante dessa possível relação interdisciplinar, cabe à comunidade arquivística fazer os questionamentos:  Como se estabelecem os conceitos de informação e documento arquivístico neste cenário?  Os dados podem constituir-se objeto da área?  Qual o papel do arquiv...

EAD no AtoM

 No contexto do software AtoM, o EAD (Encoded Archival Description ou Descrição Arquivística Codificada) é um padrão de metadados e uma linguagem de marcação baseada em XML utilizada para a comunicação técnica de descrições arquivísticas. Sua principal função é promover a interoperabilidade entre sistemas e instituições arquivísticas, garantindo a consistência e a compreensão dos dados em diferentes plataformas. Intercâmbio de informações O EAD é considerado fundamental para o intercâmbio de informações arquivísticas em âmbito nacional e internacional. A adoção desse formato padronizado permite que os dados sejam compartilhados de forma consistente e compreensível por outros sistemas de arquivo ao redor do mundo. Importação e exportação no AtoM Dentro do AtoM, o EAD é um dos principais formatos utilizados para a movimentação de dados arquivísticos. Na importação, o padrão permite a inserção estruturada de grandes volumes de descrições arquivísticas no sistema, utilizando a versão...