Preservação Digital Sistêmica: a infraestrutura da autenticidade e da Inteligência Artificial Arquivística
Cadernos de Pesquisa em Preservação Digital Sistêmica e Cadeia de Custódia Digital Arquivística
Post 4 — Preservação Digital Sistêmica: a infraestrutura da autenticidade e da Inteligência Artificial Arquivística
Ao longo dos textos anteriores desta série discutimos três questões centrais.
Primeiro, argumentamos que a Cadeia de Custódia tradicional, concebida para documentos analógicos, já não é suficiente para explicar os desafios dos documentos arquivísticos digitais.
Em seguida, demonstramos que a Cadeia de Preservação constitui uma das maiores contribuições da Arquivologia contemporânea, mas que sua função principal é operacionalizar a preservação e não substituir a custódia.
Por fim, apresentamos o conceito do Iceberg da Inteligência Artificial nos Arquivos, mostrando que a maior parte da memória documental das instituições permanece invisível para as Inteligências Artificiais atuais.
Chegamos então a uma nova pergunta.
Se a autenticidade precisa ser mantida ao longo de décadas, se os documentos precisam permanecer sob custódia digital contínua e se a Inteligência Artificial deverá acessar evidências documentais autênticas, qual infraestrutura será capaz de sustentar tudo isso?
Nossa hipótese é que essa infraestrutura já está em construção.
E seu nome é Preservação Digital Sistêmica (PDS).
Muito além das estratégias de preservação
Tradicionalmente, a preservação digital tem sido associada a estratégias como:
migração;
emulação;
encapsulamento;
normalização de formatos;
cópias de segurança.
Todas essas abordagens continuam sendo importantes.
Entretanto, elas tratam principalmente dos objetos digitais.
O desafio contemporâneo é maior.
Não basta preservar arquivos.
É necessário preservar sistemas de confiança.
É necessário preservar contexto.
É necessário preservar evidências.
É necessário preservar relações orgânicas.
É necessário preservar autenticidade.
E, cada vez mais, será necessário preservar a capacidade de produzir conhecimento confiável a partir desses documentos.
Uma visão sistêmica da preservação
A Preservação Digital Sistêmica propõe uma mudança de perspectiva.
Em vez de considerar a preservação como um conjunto de procedimentos isolados, a PDS a compreende como uma propriedade emergente de um ecossistema integrado de Sistemas de Informação Digital.
Nesse modelo, os documentos não são tratados como objetos soltos.
Eles permanecem inseridos em ambientes confiáveis durante todo o seu ciclo de vida.
Desde a produção até a preservação permanente.
Desde o SIGAD até o RDC-Arq.
Desde o SIP até o AIP e o DIP.
Desde a gestão documental até o acesso.
A preservação deixa de ser um evento.
Passa a ser uma condição permanente do ecossistema.
OAIS, SIGAD e RDC-Arq como ecossistema
A PDS encontra forte aderência ao Modelo OAIS.
Nesse contexto:
o SIGAD atua na produção e gestão dos documentos;
o Archivematica opera os processos de preservação;
o RDC-Arq assegura a preservação de longo prazo;
o AtoM atua como ambiente de acesso e difusão;
os metadados preservam contexto, proveniência e evidências.
O resultado é um ambiente no qual os documentos permanecem continuamente protegidos por mecanismos de custódia, preservação e governança.
Não existem rupturas.
Não existem zonas cinzentas.
Não existem espaços sem controle arquivístico.
A relação entre PDS e CCDA
Uma das conclusões mais importantes das discussões recentes do Grupo CNPq UFAL PDS & Ged/A é que a Preservação Digital Sistêmica e a Cadeia de Custódia Digital Arquivística não competem entre si.
Ao contrário.
São conceitos complementares.
A CCDA responde à pergunta:
Como sustentar a autenticidade por meio do confinamento sistêmico contínuo dos documentos?
A PDS responde:
Como construir e operar o ecossistema capaz de materializar essa custódia?
Em outras palavras:
A CCDA representa o princípio arquivístico.
A PDS representa a infraestrutura operacional.
A próxima fronteira: Inteligência Artificial Arquivística
Talvez a consequência mais interessante da PDS ainda esteja por vir.
À medida que os documentos permanecem organizados, preservados, contextualizados e acessíveis em ecossistemas digitais confiáveis, tornam-se possíveis novas formas de acesso baseadas em Inteligência Artificial.
Modelos RAG.
Vetorização.
ElasticSearch.
Ollama.
Modelos locais.
AtoM.
Archivematica.
Todos esses componentes passam a operar sobre documentos autênticos e preservados.
A IA deixa de responder apenas com base na Web.
Passa a responder com base na memória institucional preservada.
E isso muda tudo.
Porque a questão deixa de ser apenas tecnológica.
Passa a ser arquivística.
Uma hipótese para debate
Talvez a Preservação Digital Sistêmica represente algo maior do que uma nova abordagem de preservação.
Talvez ela seja a infraestrutura de confiança necessária para a próxima geração de Arquivos Digitais e Inteligência Artificial.
Uma infraestrutura capaz de integrar:
autenticidade;
preservação;
custódia;
interoperabilidade;
acesso;
governança;
soberania dos dados;
inteligência artificial.
Se essa hipótese estiver correta, a PDS poderá desempenhar para os documentos digitais um papel semelhante ao que os arquivos permanentes desempenharam para a memória documental nos séculos anteriores.
Com uma diferença fundamental:
não apenas preservará documentos.
Preservará a capacidade de produzir evidências confiáveis para as futuras gerações humanas e artificiais.
Para refletir
A primeira geração da preservação digital preocupou-se em preservar arquivos.
A próxima precisará preservar ecossistemas de confiança.
E talvez seja exatamente isso que a Preservação Digital Sistêmica esteja propondo.
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