Documento de Pesquisa nº 12 Arquivologia Computacional e Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes Como agentes inteligentes poderão transformar a gestão documental sem substituir a Arquivologia
PDS & Ged/A | Diário de Pesquisa
Documento de Pesquisa nº 12
Arquivologia Computacional e Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes
Como agentes inteligentes poderão transformar a gestão documental sem substituir a Arquivologia
25 de junho de 2026
🌎 Ciência Aberta
Os Diários de Pesquisa do Grupo PDS & Ged/A constituem um espaço permanente de Ciência Aberta dedicado ao compartilhamento de hipóteses, resultados parciais, proposições conceituais e agendas de pesquisa sobre Arquivologia Digital. Nosso compromisso continua sendo registrar publicamente a evolução de nossas ideias, permitindo que pesquisadores, profissionais e estudantes acompanhem não apenas os resultados, mas também o próprio processo de construção do conhecimento.
📚 O que aprendemos até aqui
Nos últimos meses nosso programa científico percorreu um caminho que, olhando retrospectivamente, revela uma evolução bastante coerente.
Começamos investigando a Preservação Digital Sistêmica.
Compreendemos que a preservação não pode ser reduzida a uma tecnologia ou a um software, mas deve ser entendida como uma política institucional sustentada por princípios arquivísticos.
Posteriormente propusemos os Ecossistemas Arquivísticos Digitais, reconhecendo que documentos, pessoas, processos, normas, tecnologias e instituições constituem uma rede dinâmica e interdependente.
Aprofundamos a compreensão da Cadeia de Custódia Digital Arquivística.
Revisitamos o Modelo OAIS sob uma perspectiva arquivística.
Exploramos a intersecção entre a tradição europeia da Arquivologia, a Ciência da Informação, as iSchools e a Computational Archival Science.
Mais recentemente passamos a discutir Inteligência Artificial, Governança Algorítmica Arquivística e a formação do arquivista do futuro.
Hoje damos mais um passo.
Começamos a investigar como agentes inteligentes poderão atuar dentro dos Ecossistemas Arquivísticos sem substituir os fundamentos da Arquivologia.
🔄 Como nossa pergunta evoluiu
Nossa pergunta inicial era relativamente simples.
Como preservar documentos digitais?
Depois perguntamos:
Como preservar autenticidade?
Como preservar confiança?
Como governar agentes inteligentes?
Como formar arquivistas para esse novo cenário?
Hoje nossa pergunta muda novamente.
Como construir Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes que ampliem as capacidades humanas sem comprometer autenticidade, contexto, proveniência, responsabilidade e memória institucional?
Essa mudança desloca nossa atenção da tecnologia para o desenho dos próprios ecossistemas.
Talvez os agentes inteligentes nunca substituam o arquivista
Durante os últimos anos consolidou-se uma narrativa segundo a qual a Inteligência Artificial substituiria diversas atividades profissionais.
Na Arquivologia, essa hipótese merece ser analisada com cautela.
Grande parte das atividades arquivísticas envolve interpretação de contexto, compreensão institucional, responsabilidade jurídica, avaliação documental, análise diplomática e preservação da autenticidade.
Essas dimensões não podem ser reduzidas à identificação de padrões estatísticos.
Talvez os agentes inteligentes não substituam arquivistas.
Talvez ampliem sua capacidade de análise, automatizando tarefas repetitivas e disponibilizando novas formas de acesso, preservação e recuperação da informação.
Essa hipótese merece ser investigada empiricamente.
📓 Caderno de Laboratório
Junho de 2026
Durante uma de nossas reuniões alguém fez uma observação que permaneceu registrada em nosso caderno de laboratório.
"Talvez estejamos imaginando agentes inteligentes como substitutos, quando deveríamos imaginá-los como novos colaboradores dos ecossistemas arquivísticos."
A frase provocou uma mudança significativa em nossa forma de pensar.
Deixamos de perguntar "quem será substituído?".
Passamos a perguntar "como humanos e agentes inteligentes poderão colaborar preservando a autenticidade e a responsabilidade institucional?".
🏛️ Proposição Conceitual
Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes
Começamos a trabalhar com a hipótese de que os Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes constituam uma evolução natural dos Ecossistemas Arquivísticos Digitais.
Nessa nova configuração, pessoas, documentos, sistemas, políticas institucionais, metadados, agentes inteligentes e modelos computacionais passam a interagir continuamente.
No entanto, diferentemente de outras abordagens centradas exclusivamente na tecnologia, defendemos que a inteligência do ecossistema não reside apenas nos algoritmos.
Ela emerge da interação entre princípios arquivísticos, governança institucional, infraestrutura tecnológica e participação humana.
Essa proposta permanece aberta ao debate e deverá ser continuamente refinada.
Muito além da automação
Grande parte das discussões sobre Inteligência Artificial em arquivos concentra-se na automação.
Reconhecimento óptico de caracteres.
Extração automática de metadados.
Classificação documental.
Indexação semântica.
Essas aplicações são importantes.
Mas talvez representem apenas a primeira etapa da transformação.
Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes poderão integrar preservação, gestão documental, transparência ativa, proteção de dados, recuperação inteligente da informação, governança algorítmica e participação social em uma arquitetura única.
Talvez o verdadeiro desafio não seja automatizar atividades.
Seja construir ambientes confiáveis.
💡 Um dos nossos achados
Quanto mais avançamos em nossas pesquisas, mais percebemos que a Inteligência Artificial depende profundamente da qualidade da informação produzida pelos próprios arquivos.
Metadados consistentes.
Contexto preservado.
Proveniência documentada.
Eventos PREMIS.
Descrições arquivísticas de qualidade.
Sem esses elementos, mesmo os sistemas inteligentes mais sofisticados tendem a produzir resultados menos confiáveis.
Talvez a Arquivologia não seja apenas usuária da Inteligência Artificial.
Talvez seja uma de suas principais infraestruturas epistemológicas.
Arquiteturas abertas para instituições públicas
Outro aspecto que passou a orientar nossas discussões diz respeito à soberania tecnológica.
Arquivos públicos, universidades e instituições de memória precisam reduzir sua dependência de plataformas fechadas.
Nesse contexto, arquiteturas compostas por softwares livres, como Archivematica, AtoM e modelos locais executados em ambientes controlados pela própria instituição, representam uma alternativa promissora.
Ferramentas como Ollama, bancos vetoriais, mecanismos de Retrieval-Augmented Generation (RAG) e agentes inteligentes poderão integrar esses ecossistemas sem comprometer a governança documental, desde que orientados por políticas arquivísticas claras.
A arquitetura tecnológica, portanto, deve permanecer subordinada à arquitetura institucional.
⚖️ Dilema Arquivístico
Se um agente inteligente recomendar automaticamente a eliminação de documentos com base em padrões estatísticos previamente aprendidos, essa recomendação poderá ser considerada suficiente para fundamentar uma decisão de avaliação documental?
Ou a responsabilidade continuará pertencendo ao arquivista e à autoridade competente?
Talvez essa pergunta acompanhe a Arquivologia durante muitos anos.
A infraestrutura invisível da confiança
Ao longo desta pesquisa começamos a perceber que autenticidade, proveniência, cadeia de custódia, preservação digital sistêmica, proteção de dados, transparência e governança algorítmica não constituem temas independentes.
Na realidade, todos esses elementos compõem aquilo que chamamos de infraestrutura invisível da confiança.
Ela raramente aparece para o usuário final.
Mas sustenta toda a credibilidade das instituições públicas.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições da Arquivologia para a sociedade digital.
🔬 Um resultado inesperado
Esperávamos encontrar profundas diferenças entre a tradição arquivística europeia e a Computational Archival Science.
O que observamos foi diferente.
Quando orientadas por princípios arquivísticos, ambas convergem para preocupações comuns: autenticidade, contexto, responsabilidade, transparência e preservação de longo prazo.
Talvez essa convergência represente uma das maiores oportunidades para a Arquivologia internacional nas próximas décadas.
O arquivista como arquiteto de ecossistemas
Talvez uma das transformações mais significativas da profissão seja justamente esta.
O arquivista deixa de atuar apenas como gestor de documentos.
Passa a atuar como arquiteto de ecossistemas documentais.
Isso significa participar da definição de políticas de IA, da governança de dados, da arquitetura de metadados, da preservação digital, da transparência institucional e da proteção dos direitos dos cidadãos.
Essa mudança amplia o alcance social da Arquivologia.
Sem alterar sua identidade.
🤔 Uma hipótese parcialmente reformulada
Inicialmente imaginávamos que a Inteligência Artificial modificaria os arquivos.
Hoje começamos a perceber que ela modifica principalmente a forma como projetamos e governamos ecossistemas documentais.
Essa diferença parece pequena.
Mas altera profundamente nossa agenda científica.
🌱 Uma hipótese em construção
Talvez os Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes representem a próxima etapa da transformação digital da Arquivologia.
Não porque substituam os fundamentos clássicos da disciplina.
Mas porque ampliam sua capacidade de responder aos desafios de uma sociedade intensamente mediada por dados, algoritmos e Inteligência Artificial.
🧭 Agenda de Pesquisa
Durante os próximos meses pretendemos aprofundar diversas questões:
Como modelar Ecossistemas Arquivísticos Inteligentes para instituições públicas?
Como integrar agentes inteligentes à Cadeia de Custódia Digital Arquivística?
Como utilizar PREMIS como mecanismo ativo de governança documental?
Como combinar RAG, modelos locais e descrição arquivística preservando contexto e autenticidade?
Como desenvolver indicadores para avaliar a confiabilidade de agentes inteligentes em arquivos?
Como fortalecer a formação dos arquivistas para projetar, governar e avaliar esses ecossistemas?
🔭 Olhando para 2040
Se nossas hipóteses estiverem corretas, talvez, nas próximas décadas, os arquivos deixem de ser vistos apenas como repositórios de documentos.
Serão reconhecidos como ecossistemas inteligentes de confiança, transparência, memória e governança pública.
Nesse cenário, o arquivista continuará desempenhando um papel central.
Não porque dominará todas as tecnologias.
Mas porque continuará sendo o profissional responsável por garantir autenticidade, contexto, responsabilidade e continuidade institucional em um mundo cada vez mais inteligente.
💬 Vamos continuar esta conversa?
Como você imagina um Ecossistema Arquivístico Inteligente em sua instituição?
Quais atividades poderiam ser realizadas por agentes inteligentes?
Quais jamais deveriam prescindir da atuação humana?
Como equilibrar automação, eficiência, ética e responsabilidade institucional?
Talvez essas perguntas orientem a próxima etapa da Arquivologia contemporânea.
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